sábado, 18 de novembro de 2017



Na terça-feira (21), o Sesc, braço social do Sistema Fecomércio-CE, promove mais uma edição do projeto Bazar das Letras, com participação do escritor Henrique Beltrão de Castro, que lança o AVESSO: o Livro da Insônia (crônicas, contos e poemas)O evento é gratuito e acontece na Sala de Vídeo da Unidade Centro do Sesc, a partir das 18h30, com mediação de Carlos Vazconcelos.
            
Avesso: o Livro da Insônia é obra de Henrique Beltrão de Castro composta com prosa e poesia. Traz escritos em sua maioria nascidos da experiência com a dor, a tristeza, a ira, o conflito. Denuncia o desamor e o egoísmo. Cita a depressão e os suicidas. Alguns textos versam sobre amizade ou amor, mas a maior parte tece um grito de desabafo contra a injustiça, o egocentrismo, a desonestidade, a ganância. “Eu não ando só, só ando em boa companhia”, parece cantarolar os versos de Vinicius de Moraes nesta sua publicação o escritor que se faz acompanhar de dois nomes da literatura cearense: Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela, que fez a orelha do livro, e Carlos Nóbrega, a apresentação.


Sobre o Escritor

Poeta, compositor, radialista, pesquisador e professor universitário brasileiro, nascido em Fortaleza. Atua na Universidade Federal do Ceará - UFC, Produtor e apresentador dos programas Sem Fronteiras: Plural pela Paz (desde 1998) e Todos os Sentidos (desde 2003), programas da Rádio Universitária FM 107,9 e em espetáculos poético-musicais.
Autor do CD Plural – Henrique Beltrão e Amigos (2015), e dos livros; No Ar, um Poeta (2014), Vermelho (2006) e Simples (2009), livros de poemas e canções, diversas delas gravadas.
Graduado em Letras: Português-Francês pela UFC (1988). Mestre em Linguística Aplicada: Ensino/Aprendizagem de Línguas Estrangeiras pela Universidade Estadual do Ceará (2002). Doutor em Educação Brasileira pela Faculdade de Educação da UFC (8/2008 – 12/2011), com doutorado sanduíche na Université de Nantes (UN), França (03/2010-02/2011). Tese: No ar, um poeta: do singular ao plural – experiências afetivas (trans)formadoras em um percurso autobiográfico poético-radiofônico (2011). Orientadores: Luiz Botelho Albuquerque, Ph. D. (UFC) e Martine Lani-Bayle, professeur des universités (UN).

Sobre o Mediador

Carlos Vazconcelos, escritor, professor e produtor cultural. Doutorando em Literatura Comparada pela UFC. Publicou "Mundo dos Vivos", vencedor do Prêmio Clóvis Rolim de Contos (2006) e do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura (2007), ambos da Academia Cearense de Letras; "Os Dias Roubados" (romance), contemplado pelo Edital de Incentivo às Artes, da Secult; "Parquelândia, bairro com personalidade" (2015), que faz parte da coleção Pajeú, da Secultfor.

Sobre o Bazar das Letras
O Bazar das Letras tem como intuito fomentar a produção da literatura cearense, além de proporcionar a interação do escritor com o público. O projeto acontece durante todo o ano, nas unidades do Sesc, sendo um importante espaço para lançamento de novos escritores e novos títulos, valorizando assim a cultura do estado.


SERVIÇO

Bazar das Letras - Lançamento do AVESSO: o Livro da Insônia  
Local: Unidade Centro do Sesc (Rua 24 de Maio, 692)
Data: 21/11
Horário: 18h30
Informações: (85) 3455.2118


domingo, 12 de novembro de 2017

REVISTA PARA MAMÍFEROS # 4

Para Mamíferos #4
Revista de literatura e artes
Homenagem a Audifax Rios (1946-2015)


A revista Para Mamíferos, cuja equipe de editores deste quarto número é composta por Jesus IrajacyPedro SalgueiroFernando SiqueiraGlauco SobreiraPoeta de Meia Tigela e Nerilson Moreira, após algum tempo de hibernação, volta a cruzar os verdes mares pasmacentos e cearenses. E volta por cima, em uma transatlântica capa do multimegaplus artista das bandas de Santana: Audifax Rios, escritor, ilustrador, pintor, cenógrafo, publicitário e o diabo a quatro que quisesse ser, pois fazia da palha um balaio.
Esta edição traz, em celebração ao seu legado e à sua vida, um breve dossiê biográfico, assinado por Raymundo Netto. Daí a escolha inevitável de trazê-lo de volta ao Clube do Bode, nas tardes caprinas de sábado do Flórida Bar, com o apoio do livreiro mais célebre da cidade, Sérgio Braga, pai de chiqueiro-mor do referido Clube.
A revista imprime também a participação de Sânzio de Azevedo, maior pesquisador da literatura produzida no Ceará, revelando os bastidores documentais sombrios da renomada Padaria Espiritual; contos de Pedro Salgueiro,Luís Marcos Joca Reiners Terron; poemas de Pedro Henrique Saraiva LeãoRaisa ChristinaCarlos VazconcelosNatália Maia e Alejandra Pizarnik (em tradução pelo Poeta de Meia-Tigela); artigos sobre Descartes Gadelha, por Jesus Irajacy, sobre os 100 anos de Dentro do Passado, de Otacílio de Azevedo, por Raymundo Netto, e sobre a “Turma da Barão de Aracati”, por Fernando Siqueira; ensaio fotográfico de Regino Pinho, mandalas de Leontino Eugênio e, na tradicional seção “Como Você Nunca Viu”, Régis Frota.

Mais Informações sobre a revista: irajacy@yahoo.com.br

(Texto extraído de ALMANACULTURA, de RAYMUNDO NETTO
http://raymundo-netto.blogspot.com.br/) 

terça-feira, 16 de maio de 2017

RESENHA DE CARLOS CARVALHO

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ACIDADE, DE CARLOS NÓBREGA E POETA DE MEIA -TIGELA

 
Em As cidades invisíveis (1990), de Ítalo Calvino, a cidade não é apresentada como um conceito geográfico, mas como um organismo vivo e pulsante que em tudo se assemelha ao próprio ser humano. Cada capítulo do livro de Calvino é dedicado a uma determinada cidade. Cada uma dessas cidades possui nome de mulher. Sobre elas, o que se sabe é aquilo que Marco Polo conta ao poderoso Kublai Khan. Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo, quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores (CALVINO, 1990:9).

O que faz com que Khan continue ouvindo Marco Polo talvez resida na maneira como o veneziano faz seus relatos. As cidades, sejam quais forem, são o que são. Contudo, o que se dá aos olhos depende em muito de quem vê. Assim, as cidades podem ser masculinas, femininas ou até genderless. As cidades podem ser feias, belas ou malditas. As cidades também podem ser, como naquela canção de Aroldo e Moraes Moreira, uma representação do amor e da liberdade. A cidade pode ser uma moça. Pode não ter idade. As cidades comportam mundos. Abrigam, agridem, amedrontam. Mas afinal, o que é a cidade? Uma maneira de responder tal questionamento é fugindo dos muros e das grades que nos “protegem” de quase tudo. Mas, Humberto Gessinger já nos alertou que o quase tudo, quase sempre é quase nada. Dessa forma, é necessário sair à rua e ver a cidade fluir, de perto, com seus odores, suas flores e seus desvãos.

E me parece que foi exatamente isso que os escritores Carlos Nóbrega e O Poeta de Meia-Tigela resolveram fazer. O resultado dessa empreitada é o livro Acidade, de 2016, publicado pela Expressão Gráfica e Editora. O livro tem 156 páginas. O prefácio foi escrito por Bárbara Costa Ribeiro, enquanto o posfácio ficou a cargo de Li Lê Santos. O título do trabalho traz em si um trocadilho entre “a cidade” e “acidade” (acidez), ao mesmo tempo em que reconhece na cidade, a acidade.

CAENS DE RUA

A cidade é um lugar anormal,
Uma guerra entre o mau e o mau
Vence quem late mais au
Perde quem perde o sinal. (p.43)

Dizer que Acidade é um livro de poesias seria ignorar todos os recursos multimodais que compõem o referido trabalho, encarcerando-o em apenas uma das inúmeras prateleiras do cânone literário. O livro de Nóbrega e Meia-Tigela vai muito além, fazendo-nos lembrar do icônico Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão. O romance de Loyola, após ser recusados inúmeras vezes pelas editoras brasileiras, acabou sendo publicado na Itália, no ano de 1974, por Giangiacomo Feltrinelli. Como o Brasil insiste na sua “viralatice”, Zero só foi publicado por aqui no ano seguinte, pela editora Brasília/Rio. As justificativas para não se publicar o Zero se baseavam na alegação de que “dificuldades gráficas” impediriam a boa execução da obra. Ninguém dizia, no entanto, que a obra era revolucionária e questionadora. E um livro que pudesse ser usado como provocação não poderia, obviamente, vir a público naqueles tempos sombrios nos quais o Brasil vivia soterrado.

Zero é considerado, hoje, um romance de caráter pós-moderno. Os tempos, conforme disse Raduan Nassar ao receber o Prêmio Camões, continuam sombrios. Dessa forma, toda e qualquer obra verdadeiramente artística corre seríssimos riscos de enfrentar “dificuldades gráficas”, para que possa chegar ao público leitor. Ainda bem que isso não aconteceu com Acidade, tendo em vista a acidade das decisões político-jurídico-midiáticas que têm assolado o país.
 
?
aos teus pés
morrem dois
morrem dez
e depois
morrem cem
morrem mil
que que tem?
é brasil
são inúmeros
são antônios
são só números
só anônimos (p.50)

Mas afinal, o que Acidade? A ficha catalográfica do livro “entrega o jogo”. Lá, lê-se: “Acidade é um Livro-Zine, um Livro-Zona, um Livro-Zão, um Livro-Zen como qualquer outra cidade”. Acreditamos que poderia se afirmar que Acidade também pode ser um Zine-Livro, ou seja, um fanzine em forma de livro capaz de abarcar tudo aquilo que não seria possível de ser colocado, por questão de espaço, em um zine tradicional.
CIDADE
   o clube é vizinho do açougue
que é vizinho da igreja
vizinha à cadeia
à esquerda do bordel
que dá frente ao hospício
ao lado do bar
nossa casa no meio
somos todos vizinhos
somos todos vizinhos
de nós mesmos. (p.105)

Mais importante que a forma, a nosso ver, é o conteúdo. Assim, pelas cento e cinquenta e seis páginas de Acidade, a cidade de Fortaleza, habitat dos autores, aparece em situações que são belas, tristes e revoltantes. O descaso com o homem e o meio é denunciado pelos poemas e imagens fotográficas de placas, logomarcas, pichações, monumentos e anúncios que constituem a obra. Mas não é apenas Fortaleza que surge em Acidade. Nesse mais recente trabalho de Nóbrega e Meia-Tigela, está todo um Brasil que não se mostra no horário nobre da tevê. Está o submundo, a vida e o cotidiano das coisas e das pessoas que jamais caberiam numa poesia bela, recatada e do lar. Em Acidade está a poesia propriamente dita. Aquele canto poético torto, feito faca, pronto para desafiar o coro e cortar a carne dos contentes.
 
 
POSTAGEM ORIGINAL E PÁGINA DO AUTOR: http://blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br/ 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

SERTÃO DE TODOS NÓS. DE PEDRO SALGUEIRO

Bandeira de Tamboril

Fui, sou e serei, para sempre, apenas um sertanejo exilado no litoral. Nada aqui me diz respeito, por aqui tudo é transitório, passageiro... Apenas espero a triste hora do alegre regresso.
Aos trinta, por puro esnobismo, comprei gaiola na última linha do oceano. Cuidadosamente de costas pro mar, pra que toda manhã pudesse desdenhar meu asco de pequeno-burguês físico mas nunca mental. De lá pra cá andejo em linha reta rumo aos Inhamuns.
Aos quarenta, atravessei a fronteira imaginária da 13 de Maio, linha simbólica de todas as Fortalezas. Em sentido contrário aos tolos, tontos suburbanos mentais.
Meu voo é de avoante ferida, com tiro de chumbo nas c’roas do rio Acaraú, nas quebradas do Riacho do Gado, por trás da Barra da Oiticica, de lado da Caconha de todos os loucos.
Pois em cada quarto de qualquer família pulula um doidinho de testa quadrada, encarnado de sangue da abelha Capuchu... Enquanto o Diabo, rosianamente, redemoinha no terreiro.
Gracilianamente seco, corre meu sangue pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o direito, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha.
Apenas quando se estende pelas estradas do Canindé, as palavras vão escasseando, até quase sumirem da voz. Água evaporando na língua morna de todos os nós. De marejado apenas os olhos, único órgão úmido do sertanejo que volta.
Sou filho, pelos dois lados, da primeira geração que saiu do campo, que desbravou a cidadezinha no pé da Serra das Matas. Não sou filho de matuto urbano, mas de matuto dos matos, de pés rachados na urina do lajedo quente.
Meu pássaro é o Camiranga de beira de caminho, comedor de Cassaco e Tejubina de grota.
Meu ouvido é de rabeca triste cantada por cego em final de feira.
Minha casinha é branca, de parede grossa, luzindo na sombra de uma Jurema imaginária.
Mesmo longe de nosso chão, formamos confrarias de quase surdos-mudos.
Apenas olhamos para o nascente a perscrutar chuva.
E quando ela vier, é certo que vem, virá sempre!, um dia. Já nos encontrará de mãos trêmulas e mala pronta.

terça-feira, 28 de março de 2017

CRÔNICA DE CARLOS CARVALHO

SERTÃO: POETAS E PROSADORES

O sertão é quase uma incógnita, uma esfinge. Como popularmente se diz: “o sertão não é para os fracos”. Para se viver no sertão, já dizia Euclides da Cunha, precisa-se ser, antes de tudo, um forte”. E o que será que diria o autor do clássico  Os Sertões (1902 ) sobre viver e escrever no sertão? Na verdade, o sertão nem sempre precisa ser o sertão. Itamar Assumpção, por exemplo, diz: “ São Paulo é meu sertão”.

No Dicionário do Brasil Colonial (1550 – 1808), Ronaldo Vainfas traz um esclarecedor verbete denominado “sertão”. Contudo, o sertão de Vainfas é, em muito, diferente do sertão que nos engole de dia com seu calor infernal, mas que à noite nos agasalha e nos protege contra o frio trazido pelo vento Aracati.  E é das vozes desse sertão que o escritor Bruno Paulino trata em seu mais recente livro intitulado Sertão: poetas e prosadores (2017), publicado pela expressão Gráfica e Editora.

O referido trabalho é constituído por 109 páginas, contendo dezenove perfis de autores que, de uma forma ou outra possuem relação com o sertão, mais especificamente, com a cidade de Quixeramobim, situada no Sertão Central do Estado do Ceará. O livro conta também com um prefácio assinado pelo poeta Rodrigo Marques, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE. A apresentação ficou por conta do escritor Arievaldo Vianna; enquanto o posfácio, por sua vez, ficou a cargo de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Ao longo de Sertão: poetas e prosadores, Bruno Paulino discorre sobre seus encontros e conversas com importantes nomes da cultura brasileira. Dessa forma, estão presentes no trabalho Audifax Rios (Aqui, tem-se uma bela homenagem à memória de Audifax, quando as páginas estão em preto e a indicação dessas páginas é feita com as letras do nome do artista), Marcos Mairton, Luiz Gonzaga, Geraldo Amâncio, Arievaldo Vianna, Rouxinol do Rinaré, Klévisson Vianna, Luiz Costa Filho, João Eudes Costa, Gordurinha, Alberto Porfírio, Moacir Costa Lopes, Vasco Benício, Claudio Portella, saraiva Júnior, Jards Nobre, Diogo Fontenelle, João Pedro do Juazeiro e J. Bosco Fernandes.  

Bruno Paulino, certamente, fez uma seleção dos poetas e prosadores dos quais gostaria de falar na obra em questão. E, talvez por isso, alguns poetas e prosadores de enorme relevância acabaram ficando de fora. Assim sendo, sentimos falta de um capítulo que fosse dedicado ao Cego Aderaldo (o capítulo “Claudio Portella e ampla visão de Cego Aderaldo”, p. 79 – 84, traz Portella falando sobre Aderaldo), bem como outro dedicado a um dos nossos poetas maiores, Jáder de Carvalho. Nonô da Sanfona (mencionado no capítulo “O rei do baião em Quixeramobim”, p. 30 – 33) também merecia um capítulo só pra ele, assim como o poeta Fausto Nilo, mencionado no mesmo capítulo. Percebemos ainda em Sertão: poetas e prosadores, a ausência de poetisas (o termo “poeta” também pode ser usado no feminino) e prosadoras, as quais, sabemos, existem em grande quantidade pelos nossos sertões; sejam eles “são paulos” ou “quixeramobins”.

E embora os textos que compõem Sertão: poetas e prosadores tenham sido escritos para publicação em jornal; o que poderia caracterizá-los como “perfis jornalísticos”; implicando em uma linguagem mais específica para o veículo, não é isso que se dá. O que se percebe é a linguagem “nua e crua” da crônica dominando todos os textos assinados por Bruno Paulino, o que, de imediato, salta aos olhos do leitor das referidas narrativas.

Assim sendo, Sertão: poetas e prosadores (2017) não deve ser compreendido como um livro de crítica literária ou uma coletânea de perfis, por exemplo, mas como um agradável livro de crônicas que se erigem a partir de uma ideia central, seja um autor, um fato ou uma obra, mas que descambam livremente para outros caminhos, permitindo as mais variadas interpretações que só são possíveis no contexto da abertura proporcionada pela própria obra.

Postagem original aqui: 

http://blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br/2017/03/sertao-poetas-e-prosadores.html 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

HÃ?



Hã? 

Wilton Matos / O Poeta de Meia-Tigela

(Am Am6 Am G)

Am G
O que sou? O que for
D/F#
Penso não devia ser
F7+
Parece nasci para ter 
C9 (Am Am6 Am G)
Azar no jogo e no amor

F7+
Que sou eu? Quem sou?
C9 Am
Sou quê ou quem ou
F7+
Outra qualquer coisa
C9 D4/A
Que ser coisa oisa?
F7+
Sou alguém que fuma
C9 
Mas não se acostuma
Am F7+
Com o seu fumar. Bebe,
C/G
Mas não se concebe
D4/A
Restrito ao beber. C/G D4/A (Am Am6 Am G)
Que sou? Ser é o quê? 

F7+ Am7/E Am/D C6
Ser é ou. S(ou). Ou?

(Am Am6 Am G)
Sim, penso, existo.
Mas o que sou?
Sou o que hesito 
Em ser? Ou... Ou
Sou só o que penso?
Mas que pensa
O quem o qual
Sou? É? Hem? Saberá?
Que tal?
Existo, sim.
Que sim sou?
Existo? Que mim sou?
Sou?
Talvez

(Dm7 Dm6)
Nem só de pão?
Eu não sei não
Troco toda a filosofia
Por uma bolacha maria.


https://www.youtube.com/watch?v=6Koz_9gl1D0

terça-feira, 28 de junho de 2016

"Olha pro o Céu e pra mim, meu amor", crônica de Raymundo Netto para O POVO (no passado)


Anavã! Chegamos a junho, mês em que aconteci neste mundo, no meio do caminho, feito Pedro, ligeiro e cianótico, fugido de Natal, dependurado no bico de cegonha trapalhã e berrando: “Eu quero nascer é no Ceará!” Por isso, de não conhecer na Terra nada que me papoque mais as lembranças do que festas juninas, balõezinhos chineses, barraquinhas de palha de coqueiro, o cravo tinindo na castanha do pé-de-moleque ou a voz ecoada do Gonzagão em pagode russo na boate Cossacou: “Foi numa noite/igual a esta/que tu me deste o teu coração./ O céu estava/todinho em festa/ pois era noite de São João.”

Hoje, a cultura invasiva da sociedade do espetáculo sapucaicou as nossas festas, que deperecem ao afetado glamour e ao som de axé ou forró de plástico, que nem de longe imita o que nos fere a saudade.
Por outro lado, dia desses, ao me encostar em mesinha de plástico, numa praça em areias na rua do Sabão, onde se dava uma quermesse de igreja, olhava para o cimo céu estrelado de bandeirinhas coloridas de papel, e recordava a animação dos bairros de uma Fortaleza interior, quando os jovens se aproveitavam das festividades para escolher como par de quadrilha aquele ou aquela a quem o peito devotava gemidos de paixão, mas era desencorajado de se achegar. Nos dias de ensaio e de preparação, porém, estariam juntos, mesmo que disfarçando o ribombar da emoção e o desafino típico de primeiro amor, mas de nunca sentir tanta alegria, cortando papel de seda de cor, colando com grude de panela bandeirinhas no barbante de corda, pedindo pelamordedeus que a mamãe não esquecesse de emendar aqueles retalhos na calça e na camisa ou mesmo de costurar o vestido florido de chita.
Afinal, o dia da festa, foguetório no ar: a rua de pedras toscas tomada de barraquinhas de jogos e tabuleiros de paçocas, baião de dois, espetinhos, vatapá, bolos, refrescos e aluá. A fogueira de lenha estalando calores nos olhos curiosos da meninada e os quadrilheiros chegavam: as “damas” com vestidos de babados e tranças caídas em fita nos ombros, e os “cavalheiros”, sob chapéus de palha, ao pescoço lenço de cor, em camisa e calças rotas, bainhas tortas e alpercatas de couro. Encontravam-se os pares a ensaiar um passo diferente de “motocicleta”, “cavalo” ou “aleijado”. A moça, mais ousada, pintava a lápis o bigode, a costeleta, o cavanhaque no par desajeitado. Ele, a pretexto de lhe tocar o rosto, ali pintava uns três ou quatro pontos negros, deitando o olhar já cativo àquele sorriso que lhe parecia feito de luar.
Vinha lá o pai Francisco tocando o seu violão bi-rim-rim-bão-bão e o seu delegado. Após o casório, a quadrilha começava com anavãs, anarriês, balanceio, serrote, túnel, parafuso e passeio: “Lá vem a chuva!” “Olha a cobra!” As senhoras alimentavam de gás os candeeiros, enquanto o sanfoneiro, no resfolego do seu fole de oito baixos, convidava para o rapapé no salão, que ameaçava ir até amanhecer e a palha voar. Enquanto o cavalheiro, com o coração molinho, molinho, despontava um inocente “Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo...”, sendo acolhido por um beijo de assalto “tão bonito e tão sincero feito festa de S. João”.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

segunda-feira, 30 de maio de 2016

CABECEIRA



Entrevista d'O Poeta de Meia-Tigela no programa Cabeceira, com Rosanni Guerra. TV Assembleia, CE




https://www.youtube.com/watch?v=0YRs9RfLhd8

quarta-feira, 25 de maio de 2016



Entrevista do poeta Frederico Régis no programa Cabeceira. Obra literária do autor e o livro E5PELHOS são os assuntos do encontro




https://www.youtube.com/watch?v=LRQqq5LdXRo

quinta-feira, 5 de maio de 2016

HAICAI PARA LÉO PRUDÊNCIO ou ME SEGURA SENÃO HAICAIO


por: O Poeta de Meia-Tigela
1.
1. o haicai é uma centelha. fulguração pequeno satori iluminação. é a poesia pega no voo ou antes no salto. mas o haicai não é rápido: é breve. de uma brevidade com vagar devagar porque contemplativa 2.derivado do tanka mantém deste os versos iniciais e abdica dos dois finais; por isso o imediato da apreensão do haicai e sua expressividade cintilante: deve condensar uma impressão súbita um lampejo um luzir uma intuição que ao se vocalizar reverbere distenda-se espraie-se enlanguesça enlargueça-se — permaneça 3. vê-se que ao haicai acontece o que a todo poema: a inspiração — se a há —comodespertar do poeta à visão repentina que se lhe apresenta e o traduzir aquele reluzir (com o adendo de que a tradução devida é a da concentração para maior fulgor não cabendo expansão que não a de sentidos) 4. o sintético do poema resulta no haicai como estaticidade: se a leitura é rápida — três versos de escansão 5-7-5 — a fruição da imagem sugerida é duradoura perficante remanescente. o haicai é um flagrante o 3 x 4 (3 x 3?) de um evento um pensentimento e ao mesmo tempo imobilidade do poema que capta que rapta e perpetua o movimentar-se do acontecer. breve e duradouro fixo e movedouro o haicai é a quintessência o sumo do que se chama poesia 5. vem bashô por uma trilha estreita e o mergulho da rã no lago o surpreende: essa surpresa é o haicai: instantâneo mas também ondulante como os círculos centrífugos na água
1. guilherme de almeida: O POETA. Caçador de estrelas./ Chorou: seu olhar voltou/ com tantas! Vem vê-las! (Encantamento, Acaso, Você, seguidos dos haicais completos)
2. sânzio de azevedo: NOITE. A lua, já baixa,/ se esconde por trás da fronde./ Uma rã coaxa. (Lanternas Cor de Aurora)
3. francisco carvalho: O espírito de Bashô/ te visita no limiar/ da água sem umbral. (Romance da Nuvem Pássaro, in: Memórias do Espantalho)
4. luciano bonfim: Livro: longa liberdade/ prosseguir paisagens, pensamentos/ pairar pelas palavras (Aliterar Versos 20/60 + alguns instantâneos)
5. millôr fernandes: O hai-kai,/ descobri noutro dia,/ é o orvalho da poesia. (Hai-kais)
6. alice ruiz s: mosquito morto/ sobre poemas/ asas e penas (Desorientais)
7. bashô: a caminho do interior/ canções do plantio de arroz/ meu primeiro contato poético (Trilha Estreita ao Confim, tradução de Kimi Takenaka/ Alberto Marsicano)
8. léo prudêncio: estou sóbrio de/ palavras amores e livros/ fui regado a sol (aquarelas)
2.
1. nuvens que ao olhar
atento tornam-se pinturas:
aquarelas em fuga
(haicai 75)
2. foi guilherme de almeida quem implantou e difundiu no brasil de 1936 o haicai acrescido de título e rimas segundo a fórmula – – – – x/ – o – – – – o/ – – – – x. mas como esclarece léo prudêncio asaquarelas não pretendem seguir sempre o esquema métrico tampouco o rimático. e penso que não seja indevida tal escolha: se em sua origem há mais de quinhentos anos os versos japoneses prescindiam daconsonância da simétrica eufonia por que não prescindir agora? as aquarelas inscrevem-se numa perspectiva contemporânea do haicaiar (a do jiuritsu) ao abdicarem de aterem-se à contagem do metro e disposição rímica; ao declinarem dos títulos e ao insistirem no uso mínimo de pontuação e utilização exclusiva das minúsculas [nota de contexto: conferir o poema 62, em que a palavra “Auroras” é corrigida para “auroras”, mais condizente com o alvorecer do sertãoassumem-se como lirismo contemporão e enquanto tal isentam-se da pré-fixação de formas excetuando-se a manutenção dos três versos [nota de contexto: às vezes mesmo esse preceito normativo mínimo aparece suplantado: leiam-se os poemas 37 (para nydia bonetti) e 95, desdobrados em quatro versos; por outro lado a tessitura triádica é tão distinguida que o montante de poemas não é outro senão o de noventa e nove a saber trêsao quadrado três ao quadrado ou três vezes trinta e três] 3. a “pegada” pós-moderninha do aquarelasmostra-se também nalguns dos poemas que apelam para a temática expressivamente urbana: vejam-se os de número 39 (a bateria de samba) 53 (a batida de vodka e rock’n’roll, conducente a outra batida a de) 54 (carros que buzinam) 70 (stones na vitrola) 86 (o avião) [nota de contexto: o samba e o rock’n’roll no aquarelas: resquícios de baladas para violão de cinco cordas, livro anterior de léo prudêncio?] 4. considerada a urbanidade de certos haicais e a acentuada liberdade formal do livro inteiro parece que o distanciamos de sua ancestralidade: mas não é para tanto. é de se notar que a despeito do predominante versilibrismo estes poemas prudencianos mantêm — visualmente — o alongamento do segundo verso sugerindo-nos ao menos e sempre visualmente um não tão demarcado afastamento em relação aos haicaístas nipônicos dos séculos xvii-xviii: bashô-sora-buson-issa, por exemplo. quanto à urbanidade do aquarelas vale lembrar que os poemas acima citados constituem exceções neste volume sem dúvidas muito mais próximo de um panorama interiorano e sertanejo (conforme a pequena nota explicativa) que da cidade grande (cada vez menor porque maior). o próprio distanciamento do cenário oriental mais conclama que repele o espírito original do haicai: como fazer soarem sinceros versos brasileiros-nordestais que tratassem de “cerejeiras” “neves” “rouxinóis” “montes fujis”? somente a geografia cearense — sertão serra e litoral — pode tornar-se verdadeira imagem: “pés de manga” “brasas de fogueiras” “rolinhas” e “meruocas”: como bem diz o poema 26, “não é o monte everest/ é um pé de seriguela/ com formigas nele”. pois é o conhesentimento direto da paisagem sertaneja que permite a léo prudêncio alcançar em tantos de seus haicais o lirismo subitâneo-surprêsico do haicai oriental 5. o lirismo oriental como expressão da ligação do poeta com a natureza ao redor: faz-se profundamente presente no aquarelas o saber-se natureza e seguramente a maior parte dos poemas tem como tema a contemplação desta: “lagarta devoradora” (6) “passarinho admirador” (25) “mar invasor” (29) “galos cantadores” (41) “borboleta meditadora” (55) “sol renascedor” (68) “vento tropeçador” (79) “botão de flor desabrochador” (99) — tudo é admiração de um fora só perceptível porque ecoante e ecoante porque condizente com o dentro do bardo. por estar aberto pronto receptivo para o fora o fora se adentra e o que era fora e adentro torna-se um no poeta torna-o um com o derredor devolve-o ao entorno natural naturaliza-o ao passo que humaniza — poetiza — a natureza já poética. correndo o risco de um esquematismo por demais simplista (como soem ser os esquematismos) direi que boa parte de aquarelas (quase metade) compõe-se desse olhar contemplativo para o fora: “choveu e o pequeno/ pardal se refugiou, solitário,/ no galho de árvore” (13) ou “envergonhada com/ a multidão de estrelas/ a lua ficou vermelha” (65); uma quantia diz respeito à contemplação do si: o de abertura (1) supramencionado e “o meu silêncio é/ fuga e encontro de mim mesmo/ paz revoada em mim” (42) ou “noite adentro eu/ passo navegando o mar/ imenso que há em mim” (81). [nota de contexto: é certo que “revoada” e “mar” comportam elementos da natureza exterior mas o acento recai na observação de si na intro mais que na extro pecçãoo encontro explícito do “in-” e do “ex-” dá-se em poemas como “a lua brilhando/ acima de mim me deixa/ mais perto de Deus” (19) ou no belíssimo blaisepascaliano “ao longe, acima/ de mim, a solidão das estrelas/ me toca” (88) 6. são a meu ler as abordagens predominantes embora ocorra intercalada e espaçadamente a presença da percepção a partir do fora do si-outro como aqui amorosamente “e ela é tão linda/ que a lua toda se alumia/ quando a vê passar” (12) ou aqui perplexa e de novo pascalmünchianamente “diante do universo/ o homem é apenas mero/ grito silencioso” (23). por fim a ligação entre o si e o outro em raros poemas a partir da identidade bem delineada pela transição à primeira pessoa do plural “para além do céu/ o olhar interrogativo:/ estaremos sós?” (74) ou “a vida passa por nós/ e é passageira em nós/ diluída no nada” (80) 7. mas talvez esteja na procura da vinculação à poesia mesma a realização máxima do aquarelas. o haicai fugidio em sua brevidade e permanente em sua reverberação cristalizado assim
a palavra escrita
na folha em branco leva
um pouco de mim (46)
3.
1. perdão léo os haicais tigelíricos a seguir ainda são de estro guilhermino
2.
vejo da marquise
a lua mostrar-se nua
cheia: estripetise
3.
velho o samurai
depõe armas e se põe
a empunhar haicais
4.
vem bashô na trilha
estreita: olha acima e “eita”
um haicai lhe brilha
5.
versos e silêncio:
singelas-te. o aquarelas
lês, de léo prudêncio


haicai 99 de aquarelas

aquarelas: haicais, de léo prudêncio
editora penalux
2016

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léo prudêncio nasceu em são paulo, sp. morou por mais de vinte anos no estado do ceará e hoje reside em goiânia. em 2014 publicou seu primeiro livro de poemas intitulado baladas para violão de cinco cordas, também pela editora penalux