sábado, 28 de maio de 2011


Argonautas


Uma noite no século. No meu apartamento, bebida, música, baralho. Comigo, jogam pife-pafe Thiago Pauli e Alves de Aquino - Este, professor de Filosofia e escritor, tem por pseudônimo "O Poeta de Meia-Tigela" (aviso aos gulliveres e liliputianos: a tigela é de "Brobdingnag"). Eis que, numa rádio da Internet, Caetano canta "Os argonautas": "Navegar é preciso, viver não é preciso…". Assim como um estalo, associo a frase (lema da Escola de Sagres) com jogo de azar, ciência e nossas vidas inintencionalmente erráticas, "imprecisas". Nesta crônica, desenvolvo "grosso modo" meu pensamento.

O conhecimento humano, que lida com regularidades, padrões, até meados do século XVII distinguia dois tipos de fenômenos: os singulares ou "a priori" imprevisíveis e aqueles que, por se repetirem, "são legais e merecedores de estudo científico" (John D. Barrow, "Teorias de tudo", Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994, p. 173). Não que os fortuitos fossem desinteressantes, muito pelo contrário: eram tidos como expressões da vontade livre - arbitrária, temível - de Deus ou dos deuses. E, para compreenderem ao menos a sombra desses supostos atos de volição, valiam-se os homens de outro método, o jogo rabdomântico: I Ching, búzios, cartomancia, vareta, Urim-Tumim, dados… (a propósito, a palavra "azar" provêm do árabe "al-zahr", que significa "dado").

Um bom exemplo, "dado que, por acaso" (permitam-me o "jogo" de palavras) evoca a escola náutica portuguesa, é a história mítica do profeta Jonas. Tal como consta no Velho Testamento, o Profeta se esquiva de uma determinação divina, e foge num navio para Társis. Ocorre que, a meio caminho, irrompe violenta tempestade. Os marinheiros, temendo por suas vidas, decidem descobrir o "culpado" pelo infortúnio para lançá-lo às águas. (Impressionante como é antiga - talvez escrita em nosso genoma, de modo que nem eu mesmo escapo - a figura fascistoide do bom-moço, para a qual a solução de todo problema é mágica: achar um "Judas" e aniquilá-lo, seja física ou moralmente.) - O que os marujos fazem, então? "jogam": "E dizia cada um ao seu companheiro: Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por que causa nos sobreveio este mal. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas" (Livro de Jonas 1: 7).

A Geometria, Álgebra e Aritmética já se encontravam bastante desenvolvidas quando os matemáticos, dando-se conta da abscôndita racionalidade do acaso, ensejaram o cálculo da probabilidade: a Estatística.

E o fizeram inspirados "nos problemas de aposta, dados, cartas e todo tipo de jogos de azar" (J. D. Barrow, op. cit., p. 172). - Cientistas exatos envolvidos criativamente com jogatina pura! Vejam só o que o desespero com a liseira é capaz de fazer.

Quanto à expressão "navegar é preciso; viver não é preciso", bem: por se tratar do lema de uma "escola" cujo objetivo era desenvolver uma ciência - a Náutica - e aprimorar a técnica da navegação, por esse motivo creio que o termo "preciso" é para ser interpretado como "certo, realizável com perfeição, absolutamente seguro"; de sorte que a morte num naufrágio se deve ao fato de a própria vida ser, em essência, "imprecisa", isto é, quase caótica, vagamente previsível, composta por boas e más "surpresas", seja a bordo ou em terra firme. Com efeito, morrer absurdamente beira a normalidade: um tropeção infeliz, um osso de galinha na garganta, uma virose…

O que não quer dizer que a interpretação mais conhecida, aquela de Fernando Pessoa ("preciso" como sinônimo de "necessário"), seja errada. E não o é porque a arte também é gnose. Para confirmar isso, não vou longe: que o diga a poesia de Carlos Nóbrega - que não poderia ter faltado àquele carteado - e a d´O Poeta, bem como a "body art" espontânea do meu compadre Thiago, vulgo - não por acaso… ou sim? - Gaúcho-Show.

Manuel Soares Bulcão


quarta-feira, 25 de maio de 2011


                                             Mudanças

De vez em quando, e sem o menor motivo, chego a alguma conclusão totalmente inútil; distraído pensando sobre um assunto qualquer, um contratempo no trabalho, a final do campeonato de futebol, certa conversa com um amigo, e de súbito me baixa um pensamento vadio – se desprende não se sabe de onde e vem à tona:
– Mudo bastante de residência, a cada ano o endereço é outro, a vizinhança nova. E divago sobre o assunto – enumero as vantagens: a paisagem da janela sempre diferente, novos amigos (pra mim, que sou tão arredio a novas amizades), etc. e tal; desvantagens também várias: a casa sempre desarrumada, os livros encaixotados a maior parte do ano (e como perco tempo procurando às vezes um autor querido, e que parece encantado, eu estando doido pra lê-lo); além do enorme incômodo de ficar comunicando a todos a nova morada.
Até já criei hábito de tirar um dia no mês para passar nos endereços antigos pegando a correspondência. No fundo, chego à conclusão, causa mais incômodo que vantagens; ou não!?Deixo as conclusões de lado e passo a contar mentalmente os locais em que já morei – susto: vinte e um endereços em trinta e poucos anos de cidade. Percebo que o caso é sério, foge dos padrões normais.
Dias depois converso com minha irmã sobre o assunto, descubro estarrecido que o assunto já faz parte da crônica familiar, e que todos um dia já comentaram o assunto – alguns com simpatia, outros com uma ponta de malícia; pois é, um assunto que nunca me preocupou há muito faz parte dos comentários dos mais íntimos. Desde então, e com certa frequência, ando matutando sobre o caso; também descubro que na família, muito pratrasmente, outros parentes tinham esta mesma mania: o avô materno não sossegava no mesmo canto, um tio que morava em outro Estado se mudava às vezes mais de uma vez por ano – daí penso em determinismos genéticos e outras bobagens, em sangue cigano no passado da família –; e como sempre (e sobretudo) nunca chego a conclusões definitivas. O máximo que tenho são verdades provisórias, como a em que ando pensando ultimamente: de que a causa de tantas mudanças não é nada mais do que pura insatisfação comigo mesmo, e já que não mudo eu – mudo então de casa.
E pronto, ponto.

Pedro Salgueiro para O Povo

sexta-feira, 20 de maio de 2011


                                                 
“Organizar uma Antologia não é tarefa das mais fáceis, sobretudo quando não se pretende jogar textos aleatoriamente, sem critérios de catalogação, ou aferir valores num processo seletivo. A ideia inicial era traçar apenas um panorama do conto, mas a pesquisa avultou-se e decidiu-se, além dos 172 contos selecionados, inserir dois apêndices, com 17 capítulos de romances e 60 poemas, compondo, assim, um panorama amplo do texto fantástico cearense produzido entre os séculos XIX e o XXI.”
Aíla Sampaio                                 
Poeta e ensaísta, Professora da Unifor.


“A coletânea O Cravo Roxo do Diabo – o conto fantástico no Ceará proporcionará momentos de prazerosa leitura, pela diversidade de autores, variedade de estilos e multiplicidade de estéticas reunidas sob o viés do fantástico. Trabalho de fôlego, também se consolidará como fonte de pesquisa indispensável nas letras cearenses e brasileiras.”

Carlos Vazconcelos
Escritor

quarta-feira, 18 de maio de 2011


                  Coisas Engraçadas de Não se Rir IX: Amadamante

Raymundo Netto especial para O POVO

Nem sei como ainda existem homens que conseguem manter relacionamento amoroso, ao mesmo tempo, com duas mulheres. Eu, que tenho apenas 2 pen-drives, já desorganizei de todo a minha vida!
Domingo, na fila de um self-service, vi a moça da balança informar a um cliente: “Pois avise à sua esposa que quando vier se servir, para que eu possa fechar a sua conta, me fale o nome do senhor: Moacir”. O homem, o tal Moacir — “filho da dor”, cearense legítimo —, vidrou o olhar, esticou o pescoço no colarinho e, gesticulando o prato coberto de folhas, ofendeu-se: “Olhe, minha filha, não é por não transarmos mais que ela já se esqueceu do meu nome, não, ouviu?
Ora, até parece, pois que um senhor recebia visita e, de sua poltrona, fazia seguidos pedidos à esposa, sempre acompanhados por um afetuoso “meu bem”. “Meu bem, traz isso”; “Meu bem, cadê aquilo?”; meu bem, meeeu bem. O visitante, impressionado com o trato carinhoso devotado àquela mulher inda pós tantos anos de bodas, acusou-o em observação simpática, quando o marido riu-se displicente: “Que carinho que nada... Tu achas que ainda me lembro o nome dessa doida? O jeito é chamar de meu bem, mesmo.”
O amantismo, todos sabem, é apenas uma das mazelas do matrimônio, este, engenho decerto de mulheres (vem de “mater”, mãe), assim como o divórcio — em 70% dos casos, a pedido das mulheres —, pois que elas fazem de tudo bem feito. Começam-no e terminam-no, independentemente de consulta ao companheiro, ciente atavicamente do que significa ter ao lado uma mulher insatisfeita. Puro Inferno!
Há quem diga: fiel só Deus e a torcida Corintiana. A verdadeira fidelidade, para mim, só existe quando não se tem, sem esforço, desejo do outro. Alguns não traem o cônjuge, não por ausência de desejo, mas de coragem. Assim, defendo: se houver a menor resistência que seja a infidelidade está feita e você, também, é um de nós. E acredite: em certos casos, a maior traição que se pode fazer ao outro é continuar casado.
A razão de toda a crise conjugal se deve, além do excessivo egoísmo humano bem disfarçado sobre a capa do “respeito à individualidade”, à longa duração do acordo. Essa história de “até que a morte os separe”, deveria compreender enquanto “morte”, aquela em vida, ou seja, a morte da vontade de estar junto, e não necessariamente a morte corporal, aquela que traz, muitas vezes nesses casos, o merecido descanso.
E o que acaba um casamento? A sinceridade, por exemplo, eu sei que acaba. Creia pelamordedeus: não é a mentira que acaba o casamento, e sim, a verdade. Não a conte nunca! E, aos homens, há de se ter mais cuidado no manejo do banheiro, palco preferido para as maiores justificativas da crise.
Claro que há casamentos que podem dar certo, sobreviver a todo tipo de adversidade, seja por amor, por conveniência, ou por preguiça apenas, mas esses não têm a menor graça. Bom mesmo é casamento que ultrapassa as calçadas, enrolados em bóbis ou em tocas de alumínio nas cabecinhas de olhos na “Caras”; que ribombam às paredes geminadas das vilas; que se misturam entre panelas e grampos, ornamentados por quizílias estrepitosas, com choros, chuvas de arroz, e lágrimas nos olhos da mocinha, feito tisne, ao pé do portão; e com finais trágicos, como a tal prova de amor à bala, democratizando a tragédia passional. Por pensar assim, no bar, perguntaram-me: “Raymundo, se você se separasse, casaria de novo?” Nem pisquei — quem me conhece sabe como é difícil isso acontecer — para dizer que “Ora, é lógico que não... Nunquinha mesmo... Quer dizer, a não ser que eu me apaixonasse, é claro...”

Raymundo Netto que acredita que “perder a cabeça” não é privilégio de quem se vai à guilhotina.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

                                             
                                             Socialismos

O professor Paulo Sandroni, no opúsculo que escreveu para a “Coleção Primeiros Passos” (Teoria da mais-valia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985), conta que, certa vez, em visita a um amigo marxista, conversavam sobre as arbitrariedades da ditadura militar, prisão de operários e quejandos, quando um menininho, filho do anfitrião, interrompeu-os e, cheio de indignação, disse: “A culpa é dos hamburgueses!”.
A criança, neófita do jargão comunista, confundiu “burguês” com o natural da cidade de Hambúrguer, digo, Hamburgo (Alemanha). Há, no entanto, adultos com ampla formação acadêmica ou mesmo eruditos que, ao discorrerem sobre socialismo, cometem equívocos também elementares. E, por ostentarem o status de “formadores de opinião”, seus juízos são logo assimilados pelo senso comum.
Um desses equívocos, que considero o mais grave, é sustentar que o marxismo propugna um socialismo “de formiga”, com o mínimo possível de autonomia para os indivíduos. Ora, em O Manifesto do Partido Comunista (livreto de iniciação), a definição dada pelos autores à sociedade sem classes conforma-se perfeitamente ao ideal iluminista – e liberal! – do indivíduo como fim: “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a garantia do livre desenvolvimento de todos”. Já no ensaio A ideologia alemã, Marx descreve o homem do futuro que sonhara como um “homem integral”, não fragmentado pela divisão do trabalho, que “caça pela manhã, pesca à tarde, cria animais ao anoitecer, critica após o jantar…” — Logo, um indivíduo complexo, multifacetado e livre, sem nada que lembre o fascista ideal-típico, este sim um análogo de inseto social.
Outro erro é estabelecer identificação cabal entre socialismo com apenas uma de suas correntes: a “comunista”, que teve como precursores Babelf e Blanqui e cuja formulação final foi dada pelos assim chamados “clássicos”: Marx, Engels e Lenin.
Ocorre que o marxismo não detém (na verdade, nunca deteve) o monopólio do pensamento socialista. O que há de fundamental na ideia de socialismo – algo compartilhado por todas as suas variedades – pode ser resumido na seguinte sentença: a economia a serviço da sociedade (não o contrário, como sói ocorrer no capitalismo), sendo a função primeira da sociedade estabelecer a igualdade entre os homens.
Já as questões que dividem os socialistas são duas: a) saber qual o modelo econômico que serve – como o melhor ou na condição de único compatível – aos propósitos deste sistema social; b) o tipo de igualdade a ser implantado: igualdade de oportunidades? Igualitarismo cabal? Igualdade universal ou somente para os indivíduos de uma determinada nação, etnia ou raça supostamente superior? (esta última interrogação é a que demarca o socialismo de esquerda do socialismo de extrema-direita, ou nacional-socialismo.)
Ex-marxista (“ex”, não “anti”) e ainda socialista, simpatizo com a corrente, hoje em ascensão, do liberal-socialismo, cujo precursor foi o economista e filósofo utilitarista John Stuart Mill. (seus principais teóricos são L. T. Hobhouse, Francesco Merlino, Guido Calogero e Norberto Bobbio.) Tal corrente não tem o ranço messiânico judaico-cristão (logo, religioso) da variante marxista ortodoxa; não sataniza o mercado, ao contrário: entende que, por ser o mercado um produto histórico anterior ao capitalismo (e não uma criação deste), é perfeitamente assimilável; defende que, no socialismo, o lucro deve permanecer como critério “de eficiência empresarial”, embora não mais como único ou superior critério e, muito menos, como base da moralidade; busca estabelecer uma combinação “ótima” entre mercado e Estado de Direito Democrático para a promoção de justiça distributiva e salvaguarda do imperativo segundo o qual “nenhum homem deve ser tratado como meio, mas como fim em si mesmo.
Manuel Soares Bulcão Neto
Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste em 15/05/2011, com o título “Mercado e Estado”.

         
                        
           O concerto inebriante do Poeta de Meia-Tigela

(Nilto Maciel)



Vi, pela primeira vez, o Poeta de Meia-Tigela numa noite de ano da dezena inicial do terceiro milênio. Visão que me estarreceu. Imaginei-me em estado de alucinação. Sim, aquela figura esguia, quase transparente, alva de pele e roupas, a caminhar na minha direção, me fez tremer. Culpei a bebida. Andava então a me embriagar todo dia. A ter pesadelos, acordar trêmulo e com ganas de subir ao mais alto do prédio e de lá me jogar para o precipício do nunca mais.

Eu o esperava, é certo. Pois Pedro Salgueiro combinara uma visita a mim, tal qual vem fazendo há quase dez anos. Toda semana me telefona: Nilto, quero te apresentar um poeta novo. Nunca diz: Levarei à tua presença uma poetisa jovem. Vem sempre acompanhado de meia dúzia de poetas e prosadores.

Quando pronunciou o nome do visitante, brinquei: Homem de Deus, já me bastam os poetas de meia-tigela que você traz ao meu tugúrio de concreto. Por que não vem com Jorge de Lima, Murilo Mendes, Nauro Machado? Ele riu, porque sempre ri: Você não irá se arrepender. Este é dos bons.

O Poeta de Meia-Tigela tem outro nome: Alves de Aquino. Porém, prefere o primeiro. Estudou filosofia, que conhece como poucos filósofos, de Sócrates e Platão a ele mesmo, e leciona a matéria numa universidade. Sua figura, no entanto, não lembra a de um pensador grego, mas a de algum personagem de Dostoievski, de quem é leitor full time.

Nos primeiros momentos do encontro, falei pouco, desconfiado, a mirá-lo de soslaio. Quem seria aquele sujeito de aspecto ultrapassado, barba comprida e rala, cabelos assanhados, olhar de desvairado, jeito de parricida, fala mansa?

Outros encontros ocorreram. Mais conversas recheadas de lucubrações e regadas a éter e demais anestésicos. Aos poucos, tornei-me seu admirador, não por sua sabedoria aristotélica, sua maneira platônica, sua quietude socrática. O que nele seduz é a humildade. Não vive a esfregar poemas na cara dos ouvintes. Sabe ouvir e falar, sempre atento aos menores ruídos ou aos maiores silêncios.

Poeta da genealogia daqueles de quem pedi presença a Pedro, não necessita de apresentações, apesar de novo. Entretanto, me solicitou prefácio para seu magnífico conjunto de poemas Concerto nº 1nico em mim maior para palavra e orquestra, editado em 2010. Se eu soubesse da grandeza deles, teria recusado o convite. Pois não tenho aptitude sequer para falar da Grande Poesia, quanto mais para analisá-la. Sou apenas leitor indolente e sem perspectivas de dar um passo a caminho da hermenêutica. Ele, porém, não conhece o meu estado mental e, inteligente e magnânimo que é, quis me privilegiar. Rabisquei umas tolices e ele as achou saborosas. Estou em seu livro, pois.

O Poeta tem me visitado com frequência. Falamos de quase tudo: livro, literatura, música, cinema, vida, mulher... Nunca se mostra sábio. Chega a fazer perguntas. Não, não quer medir meus conhecimentos. Não é daqueles homens sabidos que destilam sabedorias em mesa de bar. Não profere frases feitas ou extraídas de livros. Fala a língua dos poetas. Ou nem tanto. Não dá lições, não se exibe com ares de professor. Parece aluno de escola primária ou aprendiz da vida. Ouve com atenção, opina, discute, sem empáfia, como se todos fossem poetas da sua estatura. E não somos. Ou não sou.

O que dizer, então, das mulheres do Poeta? Amante doentio de Emma Bovary, Anna Karenina, Bárbara de Alencar e outras heroínas literárias ou reais, ele vai da Rússia czarista e da França puritana à Fortaleza do final do século XX e do princípio do XXI, movido pela mesma paixão: a liberdade de amar e viver. Com aparência de santo ou místico – não aquele figurino de Francisco de Assis adotado por outro poeta apaixonado, o asceta Alcides Pinto –, modula seu cântico nos colos febris das raparigas (no sentido antigo da palavra) em flor.

À maneira de Caetano Ximenes Aragão, em Romanceiro de Bárbara, o Poeta de Meia-Tigela compôs poemas para a primeira grande revolucionária nascida no Ceará, reunidos no volume Memorial Bárbara de Alencar & Outros Poemas (2008). E lhe deu voz: “Costuma ser grata / A volta pra casa. / Mas não neste caso / Em que me maltratam”.

Alves de Aquino é, também, divulgador de arte. Por algum tempo, editou um jornalzinho, repleto de poemas, contos, entrevistas com escritores e muito mais. Numa das edições, estampou entrevista comigo, realizada por ele e Mario Sawatani, na casa deste. Para nos sentirmos relaxados, serviram vinhos chilenos e música popular brasileira. Ligado o gravador, perdi a compostura e, instigado pelos dois entrevistadores, contei tudo. Tanto quanto um torturado. À hora do almoço, a conversa resvalou para os porões mais escuros da nossa intimidade. Muito sério, o Poeta me chamava de Príncipe Míchkin, como se me visse russo e idiota. Quis me zangar, mas, me conformei com minha condição, ao vê-lo confundir Mario (seu amigo de infância) com Dimitri Karamazov. Felizmente, o inteiro teor daquele colóquio não chegou ao jornal.

sábado, 14 de maio de 2011

                                            Lançamento

                            Devaneios, Delírios e Desamores
                                                
(PREMIUS Editora)
Data: 2 de junho de 2011 (quarta-feira)
Horário: a partir das 19h30
Local: Centro Cultural OBOÉ (rua Mária Tomásia, 531, Aldeota) 
Para aquisição de livros e contato com o Autor: bernivaldo@gmail.com
                                                 Sobre a Obra:

O romance narra de forma dinâmica a trajetória de personagens como Fred e seu confuso amor com Adriana Marta, do qual nasce Frederico Júnior, o FJ, o primogênito. A visita obrigatória de Fred ao colégio do menino rebelde é a porta entreaberta para um reencontro com o passado; ao se deparar com o algoz de seu filho, a coordenadora de ensino, o pai sente que algo não é como lhe parece. Por que aquela jovem noviça parecia tão acabrunhada? o que temia? Por que insistia em livrar-se logo daquele enfadonho encontro?
O passado guarda a história de Maçaroca e uma das cinco filhas do seu Felicíssimo, a Dora, amante de Dr. Fechinni. As outras, Cida, Ceiça, Jacira e Tilda também têm espaço na narrativa, sendo esta, uma intrigante leitora dos clássicos literários. As moças trazem no sangue a ânsia de viver intensamente, sem preocupação com escrúpulos, censura ou remorsos. Por isso, atraíam os mais diversos tipos humanos, como a louca “Ainda Tem”. É nesse clima que Tilda e Santos elaboram e seguem minuciosamente o audacioso plano para pôr fim à vida de Porfírio. Desfecho inusitado.
Rejane Nascimento (Professora e escritora)
Sobre o Autor: Bernivaldo Carneiro é natural de Jaguaretama, Ceará. Formado em Geologia pela Universidade Federal do Ceará, com especialização em Engenharia de Saúde Pública e Ambiental/Sanitarista, USP-SP. É funcionário público federal há 31 anos. Tem outras obras, dentre as de ficção: Fofocas, futricas e folclore (romance, 1998), Satirizando o cotidiano (crônica, 1999) e Nas garras de um irreverente (crônica, 2000). É membro da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará/ALMECE e membro da Associação Cearense de Escritores/ACE.