sexta-feira, 10 de junho de 2011

                      "Cabeça de Orfeu" (1905), de Odilon Redon (1840-1916)


                            O A E O Z
O mais que nos dizemos são veredas,
quasefala que exulta e silencia.
O gemido de espasmo em que segredas
o sulco, o sumo oculto da lalia.

Com a força milenar de um Rigveda
nossa semipalavra se irradia.
O grunhido a mudar-se em labaredas
e a fervilhar em Verbo, em Parusia.

O amor que te sussurro em afonia
e que decodificas e desvelas
será cedido a outrens algum dia.

Desaparecerá a maladia
que ora devasta o mundo e o desmantela:
seremos todos Um, na Poesia.


(Poema publicado na Revista MAMBEMBE - Ano 1, N. 3, 2010, e extraído originalmente do "CONCERTO Nº 1NICO EM MIM MAIOR PARA PALAVRA E ORQUESTRA", 4º Movimento, Livro 1, Seção 1)

Poeta de Meia Tigela



                                            Engenheiro

Pedro Salgueiro para O povo

                                                   O engenheiro sonha coisas claras
                                                       João Cabral de Melo Neto

Construiu em três dias o dormitório em que Agripino, pai de Amadeus, passaria os últimos seis meses de sua vida — ventilação perfeita, claridade regular, paredes finas apoiadas em chão áspero.
Gastou um ano levantando a torre da camarinha de Vicença, viúva de primeira mão, em nova viagem de núpcias — vista para os três lados, telhado caindo para o poente, amortecendo o sol forte daquelas paragens, canto escuro para a cama (sábia penumbra a esconder desencantos); vento noroeste que traz boa sorte; escada em círculos; chão lisinho; teto alto.
Porém faz sete anos que constrói a cadeia, procurando o ângulo correto para a fresta do calabouço — barulho algum deve chegar às celas; janelas altas com parapeito largo onde os presos devem se postar pensativos, observando o horizonte infinito em que nada, a não ser a cordilheira distante, deve servir de barreira: um horizonte vasto para um cubículo e a noção exata e infinita fora, a diminuir mais e mais o já minúsculo quarto; vasto abismo circulando o prédio, a noção do precário e eterno a mexer com os nervos — estuda cada detalhe como se levantasse o teto que lhe serviria de abrigo pelo resto da vida.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

                                                 
(Toulouse Lautrec, Crouching Woman Red Hair, 1897)

                                       
                                             Não te preocupes
                                         
                                             ao ficares nua
                                             o meu olhar te veste
                                             com a veste mais linda
                                             que já tiveste.




Carlos Nóbrega

sexta-feira, 3 de junho de 2011

                                         José Alcides Pinto

 “Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (…) O que está no limiar e afogado no abismo.” (José Alcides Pinto)

                                 Quando morre um poeta

Pedro Salgueiro

 “Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (…) O que está no limiar e afogado no abismo.” (José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/08)
 
Quando morre um poeta o mundo fica lastimavelmente mais pobre. Terrivelmente mais triste. Inevitavelmente mais feio. Às 11h15min de um sábado, dia 31 de maio de 2008, um imenso dragão, disfarçado de motocicleta, atacou impiedosamente o velho poeta, de 85 anos, José Alcides Pinto, em plena Rua General Sampaio, bem em frente ao palacete conhecido como Vila do Barão, de ladinho da Praça da Bandeira, nos arredores da Faculdade de Direito do Ceará.

O rapaz da banca de revista próxima disse que ele havia passado cedo com alguns envelopes na mão, “dessa vez não vinha com a moça loura”, completou; no envelope iam os dois livros recém publicados, mas ainda não lançados, que despacharia para alguns amigos do Rio e São Paulo. Voltava devagarinho (talvez ainda não recuperado do cobreiro que o maltratara meses atrás), esperou debaixo de uma árvore o trânsito acalmar, apressou o passo e… Parou no meio da pista ainda molhada pela garoa de fins de maio, quando finalmente avistou o pássaro enorme em vôo rasante, ainda deu pra notar o vermelho dos olhos da fera, as teias de aranhas das asas e o barro seco das garras, que era com certeza lá das coroas do rio Acaraú.

O poeta saiu quebrado numa ambulância, o motoqueiro foi manquitolando atrás; a moto esquecida na sarjeta. 40 minutos depois sua filha passa tranqüilamente na mesma calçada; o rapaz da banca grita para avisar do acidente, ela apressa o passo fugindo do enxerimento. Quem deve ter lhe contado a triste notícia?

No dia 02 de junho a alma, também magérrima, do nosso saudoso poeta maldito foi, na frente, esperar pelo corpo que já ia em cortejo rumo a São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Fazenda “Terras do Dragão”, comboiado por Sérgio Braga, Lustosa da Costa, Audifax, José Teles, Carlos Augusto Viana e outros amigos do peito. Deu tempo ainda de pôr os últimos números em sua lápide, que havia sido meticulosamente preparada por ele anos antes. Não havia tido coragem de adivinhar o último algarismo. Reencontrava enfim seu pai, sua terra, sua paz…

Sob o signo da polêmica

Na juventude frequentava a casa de Otacílio de Azevedo, convivendo com os filhos do pintor e poeta, Rubens, Miguel Ângelo (Nirez) e Rafael Sânzio; já tinha um jeito despojado e falaz. Sua alcunha entre os estudantes era “Alma de Gato”, talvez pela magreza exagerada. Sua ida para o Rio, sua volta à terrinha, sua saída do emprego na Universidade Federal do Ceará, seu uso de um traje franciscano, sua adesão ao nascente concretismo, seus amores e desamores, enfim, seu comportamento de uma vida inteira foi marcado pela polêmica.

Enquanto os outros grandes poetas de sua geração vestiram o paletó e(ou) a camisa da oficialidade e(ou) o da reclusão, ele arriscou a jaqueta surrada da marginalidade e da maldição; enquanto uns cavavam prêmios e condecorações e outros se fechavam mais e mais em seus casulos, ele corria calçadas, mexendo com as moças, instigando jovens poetas sujos e cabeludos, espalhando boatos difamatórios sobre si mesmo. Criou uma imagem tão forte e polêmica sobre ele próprio, que às vezes ele mesmo esquecia quem realmente era: um sujeito frágil e religioso, bom pai, que ia à missa toda semana e rezava antes de dormir. E tinha uma das gargalhadas mais sinceras que conheci.

Sempre estava cercado (e ajudado) por uma leva de boas almas, mas também por uma corja de parasitas, cujas benesses (e elogios) ele sabia manipular com maestria; todos admiradores de seus poemas e de seu comportamento arrojado. Sobre os de boa-fé quase sempre despejava injúrias, não raro alguns de seus melhores amigos e colaboradores saíram magoados de seu convívio; em cima dos oportunistas jogava iscas, elogios falsos e prefácios não escritos. Sempre esteve acima do bem e, principalmente, do mal; todos debitavam suas ações polêmicas ao seu gênio literário. Os ofendidos perdoavam sempre; os canalhas engordavam à sombra de suas asas negras.

Estava acima do bem e do mal: tanto fazia engendrar um poema genial (e pendurá-lo no arame do varal) como caluniar um amigo que tanto o ajudara. Todos o perdoavam com um rizinho de escárnio. Estava acima do bem e do mal.

Uns altos muito altos, uns baixos…

Ao amigo que me dizia que ele tinha altos e baixos, eu retrucava: “— E qual o poeta que não os têm!?”. Depois lembrava que para cada poema fraco dedicado a Lady Diana ou Chico Mendes (ou algumas rimas escatológicas) ele tinha no mínimo uma dúzia de versos endiabrados.

Precisaríamos de alguém com muito talento, coragem e ética para fazer um inventário de sua vida e obra; alguém com isenção estética e moral para mapear suas forças e fraquezas. Talvez com a devida distância do corpo físico.
 
A caverna do dragão

Na “Crônica da Gentilândia”, do livro Fortaleza Voadora, digo: “…e o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia”.

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito frequentada; ainda hoje muitos contas histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vilinha em que ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casa conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literárias e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, Editor de Insônias (1965), e uma miscelânea, Reflexões, terror, sobrenatural (1984), além de alguns inéditos datilografados em folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, Editor de Insônias e outros contos, pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como “Nota do Organizador”, ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: “Se não fosse você, o livro não teria saído”, no que eu sempre respondia: “Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é!?”. No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

“— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!”, no que ele perguntou lá de dentro: “— Quem, poeta, o Airton Monte?”, acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o “Buraco da Gia”, pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão. E parece que estou vendo aquele sujeito magro (“tão magro que parecia estar sempre de perfil”, como bem disse, em seu A Guerra do Fim do Mundo, Vargas Llosa), com sua gargalhada sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:
“— Agora quem manda aqui é esse poeta ‘Viadão Pós-Moderno’!”
“Eu sou aquele que come as flores do aniversário.”

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)


quarta-feira, 1 de junho de 2011


 Coisas Engraçadas de Não se Rir X: Tá Todo Mundo doido... Oba!

Mas do jeito que as coisas andam no mundo, só não corre o risco de ficar doido aquele que já está. Estresse, ambição, egoísmo, falsidade, mentira e incompreensão. Somem-se a isso tudo a solidão, o medo e a maldade. A maior loucura é aceitar tudo isso e não ousar seguir em frente, a seu modo, traçando uma vida única e original, sem medos de ser taxado de maluco. A realidade confirma, como escrevi certa vez: “só os egoístas serão felizes!”
Anos-há, tive passagem pelo Hospital Mental, não como interno — fique bem claro —, mas como terapeuta. Alguns poucos meses dos quais não mais me esqueci (nem me recuperei).
A princípio, curiosidade: observar àquelas pessoas, alienadas, delirantes ou alucinadas, frágeis de pensamentos, coloridas por angústias e histórias insonháveis. Depois: o medo. Medo deles? Não, medo de mim! Imaginar que tão absurdo estado poderia tomar-me de assalto de uma hora a outra, sem bater à porta, partindo de a mais inocente esquisitice, “neura”, excentricidade até margear o desvario absoluto, amedronta. Pus-me, dês então, a reconhecer a loucura do outro na minha, um exercício interessante e, por vezes, engraçado.
Por mim, já naqueles tempos, daria alta a um bocado de gente ali, muitos deles bem parecidos com amigos e pessoas queridas aqui de fora, “normais” em suas manias e paranóias e até com um discurso mais organizado e convincente — a literatura, por exemplo, é um celeiro de gente normal. Não via nada demais neles, mas a equipe, diante de minhas argumentações imaturas, assegurava: “Esse aí? Ihhhh, é doidinho da silva...”
Dentre os tipos: o catatônico, feito estátua, parado no pátio; a mulher ao chão a chorar agonias de saudades de uma mãe que não existia; um “rapaz-gato” que miava na orelha das internas; a velhinha em olhar fixo a trazer ao colo uma boneca; um que, de lençol ao pescoço feito “capa”, galopava numa vassoura o dia inteiro levando e trazendo recados; o “poeta” que andava com livros, em espanhol, debaixo do braço e um caderno na mão, sempre explicando sobre “las musas”; enfim, uma ruma de personagens fantásticos, todos devidamente registrados como “doidos oficiais”.
Na emergência, por trás de grades, pacientes pelados — para não usarem peças de roupas como “forca”. Fora delas, outros, entupidos de remédios, andavam em círculos, feitos múmias. Um deles, lembro, com dois dedos em “tesoura”, espetava os olhos dos colegas. Alguém, com ainda alguma sensibilidade, reclamava: “Tu é doido? Quer furar meu olho, seu doido?” O “engraçadinho” saía com passos atropelados e maneando a cabeça: “Sou doido não, macho, sou doido não...”
Havia um velhinho, o Valmir Vapy, nem parecia doente. Era de bulir nas pacientes jovens ou dedilhava o dia em seu violão, isso, enquanto não confeccionava, de próprio punho, o jornalzinho “A Verdade”, informativo que tinha de um tudo: anedotas, atualidades, gastronomia, efemérides e fofocas do manicômio, e que lhe garantia, por meio de “assinaturas”, o trocado do cigarro. Da minha turma, apenas eu o assinava e ele, bom jornalista, cumpria suas edições regularmente. Noutro dia, surpreendeu-me a manchete da primeira página: “Netto, Fisio, é líder da equipe dos babões!”. Indignei-me: “Ô, Valmir, você é doido? Quer perder o assinante, rapaz?” Soube depois, ser ele apaixonado pela minha professora, e estando eu sempre muito próximo a ela, ficara doido de ciúmes.
Mas a loucura é original. Num hospital, todos os meses, elegiam três pacientes para uma entrevista de alta. O médico orientava: faria uma pergunta bem simples a cada um dos três. Respondesse direitinho: alta! Perguntou ao primeiro: “Fulano, quanto é dois mais dois?”. Respondeu: “69!”.  Reprovado na lata! Ao segundo: “Cicrano, quanto é dois mais dois?”. Ele: “Terça-feeeira!”. Coitado... Insistiu no terceiro: “Beltrano, quando é dois mais dois?”. Finalmente: “Quatro!” “Muito bem, até que enfim alguém merece receber a alta... Pode nos dizer como chegou à conclusão”, indaga. “Muito fácil, doutor, só prestei atenção nas respostas dos colegas... Olha só: 69 menos terça-feira é igual a quatro!” Ô lôco!

Raymundo Netto para O Povo

terça-feira, 31 de maio de 2011

                                                        
                                    Leia-me, se for capaz.

O escritor Pedro Salgueiro lança amanhã uma coletânea de autores cearenses apenas sobre contos fantásticos: causos, lendas e histórias para ninguém dormir

Na boca da noite, quando a lua cheia chegava e a escuridão já não era mais contida pela parca luz dos postes da Light, vinham com ela as muitas histórias misteriosas, contadas ao breu das velas, recriadas pelos adultos com o intento sem-vergonha de assustar meninos pequenos.

Ah, mas não era só isso. Contar histórias fantásticas sob a luz da vela de cera era a manutenção de uma tradição virtuosa, da qual boa parte dos cearenses, até onde penso, usufruíram.

E nem é preciso ir assim tão longe no tempo. Porque mesmo na cidade grande, longe das paragens do interior, quando simplesmente faltava luz, toda criança já ouviu do pai, da mãe, do avô ou mesmo do irmão mais velho, uma dessas histórias de arrepiar.

Era ali, pertinho da vela, na mesa ou no chão da sala, enquanto se olhava de rabo de olho para a lâmpada vermelha da TV (à procura de um vestígio de eletricidade), que se buscava nos bornais da memória os causos contados muito dantes. Quais delas você ouviu? Eu ouvi a da pedra acorrentada que ia se soltar de cima da serra e destruir a cidade inteira; a do rio que sussurrava anunciando que ia morrer gente afogada; a da pick-up preta que carregava os moleques e outras tantas, lendas urbanas ou sertanejas.

Para o escritor Pedro Salgueiro, natural de Tamboril, as histórias ouvidas eram "cavalos sendo misteriosamente açoitados em estradas escuras, luzes vistas debaixo das oiticicas na beira de rios, machados cortando carnes durante a madrugada no mercado fechado e meninos que apareciam e desapareciam em jardins e camarinhas...", como descreve o próprio.

De tanto ouvir tais causos, Pedro investiu na produção do romance fantástico e, de escritor, passou a pesquisador do assunto. Em cerca de três anos de pesquisa, Pedro conseguiu, com a parceria de alguns outros escritores, reunir em torno de 130 contos fantásticos desenvolvidos por autores cearenses, desde obras de Juvenal Galeno, escritas na década de 1830, até livros inteiros dedicados ao gênero, produzidos por jovens escritores como Alan Santiago e Robson Ramos.

"O Cravo Roxo do Diabo: o Conto Fantástico no Ceará", que será lançado amanhã no Sesc Senac Iracema, foi fruto desse mergulho no insólito, escrito aqui mesmo, no Ceará, ambientando muitas vezes ali, na esquina daquela rua pela qual você passa todos os dias.


Gênero

Apesar das histórias de deuses, da Antiguidade Clássica, o fantástico se consolidou a partir do Romantismo e, desde então, transformou-se ao longo dos anos. Por isso, não se pode dizer que haja uma característica própria apenas da produção cearense. Segundo Pedro Salgueiro, no entanto, algumas particularidades permanecem, garantindo a harmonia do gênero.

"Até o século XX, predominavam as histórias fantásticas fantasmagóricas, mas isso vem mudando. Hoje, entre os modernos, os escritores mais jovens, há um pouco de tudo: lendas urbanas, ficção científica. O fato é que o conto fantástico é aquele que aborda aquilo que não pode ser explicado racionalmente e esse conceito, de certa forma, une essas produções". Acrescenta ele que muitas dessas histórias atuais são ligadas ao cotidiano e os eventos misteriosos acontecem, inclusive, à luz do dia.

Os três anos de pesquisa demonstraram como o gênero é, de fato, relativamente novo no Nordeste. Apesar de vários autores cearenses terem escrito algo de fantástico em suas obras, produções integralmente pertencentes ao gênero são recentes porque, de acordo com Pedro, o Nordeste é uma região convencionada como realista.

"Essa região era vista assim por conta das histórias de lutas do homem contra as intempéries do clima, as secas... Essa pesquisa também surgiu desse desafio, de mostrar que há no nosso Estado muita produção fruto da imaginação e não só literatura voltada para o social", defende Pedro.

Pesquisa

Vencer o edital que viabilizou a produção do livro foi até fácil, difícil mesmo foi a compilação de tantos textos, encontrados por indicações de autores e principalmente por investigações dignas de Sherlock Homes.

Para tanto, Pedro Salgueiro contou com a parceria do professor do Departamento de Letras da Universidade Federal do Ceará, Sânzio de Azevedo, e do professor de filosofia Alves de Aquino, conhecido como o Poeta de Meia-Tijela, que desafiou Pedro a incluir na coletânea uma outra vertente do gênero fantástico: a poesia. Deste modo, as quase 700 páginas de "O Cravo Roxo do Diabo" guardam 130 contos, 60 poesias e ainda 17 fragmentos de romances.

Entre os autores selecionados, destacam-se nomes como José Alcides Pinto, Carlos Emílio Corrêa Lima e Dimas Carvalho, alguns dos que privilegiaram o gênero em suas obras. Muitos dos outros autores o implantaram em seus escritos muito mais como um desafio, uma fuga da escrita realista, uma experimentação motivada por uma boa história que o povo conta.

Até o próprio nome que intitula o livro tem os seus dois pés no gênero. "O Cravo Roxo do Diabo" é o título de uma obra de Alvaro Martins (1868-1906), uma das primeiras a ser pesquisada para o compêndio e a única que simplesmente desapareceu. Isso mesmo, juro. O tal texto estava publicado em uma edição da revista Iracema, cuja coleção está integralmente preservada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Ou ao menos estava. Faltava uma. A bendita (ou maldita?).

Até Jorge Brito, bibliófilo cearense, foi escalado para a busca e, pasmem, sequer ele tinha posse do conto ou sabia onde localizá-lo. Aí, não tem jeito, se Jorge não sabe, ninguém sabe. Resolveu-se, contudo, deixar a obra como título da coletânea, afinal já se havia mexido com o nome do "capiroto", então era melhor não contrariá-lo.

Quem sabe um dia, quando estranhamente faltar luz na sua rua, você escute que o próprio Álvaro apareceu um dia, em carne e osso, entregando a edição da revista a uma bibliotecária. Aquela que, inclusive, mora no seu condomínio. Vai saber.

Romance fantástico
"O Cravo Roxo do Diabo": o conto fantástico no Ceará
Pedro Salgueiro

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER DO DIÁRIO DO NORDESTE

sábado, 28 de maio de 2011

                                      
                                        
                                   
Sobre o 3:19 do Gênesis

Sobre os episódios no Éden

também tenho algo a dizer:

Não fomos somente nós

que tivemos de derramar

o suor do rosto, não.
E as rosas, por exemplo,

e cada botão de rosa

contorcendo-se,

Fazendo origami de si mesmo

apenas para viver,

Não conta?, Não mereceria

pelo menos um versículo?


Carlos Nóbrega