terça-feira, 10 de abril de 2012

Quando o Amor é de Graça XI: Confissão à Forca



Crônica de Raymundo Netto para O Povo


Por saber que a saudade traga a gente, o tempo nos ensina que a gente traga sempre uma saudade.

Desde pequeno tenho como regra a saudade de tudo, mesmo daquilo recomendável lançar do parapeito da janela mais distante. Chega-me de Neruda: “saudade é sentir que existe o que não existe mais”. E existo, tão saudoso de um jeito, a sentir saudades até dos meus erros. Sim, por que não? Errei muito na vida. Erros tão conscientes e queridos a não me deixar sequer sombra de arrependimento. Aliás, meus erros me são tão sinceros que sou de não poupar oportunidade de sempre contá-los, no afã de mostrar-me às pessoas para que não se iludam a meu respeito, me entendam e não esperem mais de mim. Afora do que veem, asseguro, sou apenas fama e fantasia.

Mas há, em feliz, quem inda goste de mim assim, sem exigir-me de mais nada. Outros pensam — e expressam — o que poderia melhorar para estar bem, quase me desenhando outro. No entanto, haveria de haver também aqueles que me têm a mais cordial antipatia e descrédito.

Tenho assim, outra fragilidade a confessar. Creio, e creio de verdade: as pessoas que me gostam são bonitas, simples e especiais. Ao contrário, quem não gosta de mim é porque embriaga-se no seu fel, tem mau caráter e espírito de porco (com todo respeito ao pobre animal). Faz, de fato, um grande favor em revelar-me o seu não-ter-o-que-fazer espiritual.

Mesmo assim, também a estes, curiosamente leitores fiéis — sempre esperando escorregões de vírgulas (essa coisinha gibosa, enfisematosa e de baixa autoestima), — denuncio, aqui, minhas incorrigíveis falhas: Não gosto de aparecer, nem de títulos, muito menos crachás. Detesto multidões e falar em público. Sou gago, cheio de tiques, distraído e enjoado. Incompetente nas coisas mais simples, não sei coisas demais. Tenho problema com relógio de ponto e com extratos bancários. Gosto de letras, não de números, por isso não me adapto ao dinheiro. Guardo coisas velhas que não têm valor nem interessam a ninguém. Gosto de andar de ônibus e a pé. Adoro roupa muito usada (as primeiras da gaveta), filmes em preto e branco e mesa de bar de esquina. Não sei nome de carros, não como ao lado de quem não gosto, nem danço coisa nenhuma, além de ter passado da idade de ter que ouvir aquela música que todos ouvem apenas porque é o sucesso do momento. E, para concluir, a mais grave: acredito serem possíveis muitas coisas que todas as outras pessoas já sabem, de berço, que não dão certo, mas eu insisto nelas mesmo assim.

Machado de Assis, ao acaso, concluiu: “Um dos defeitos mais gerais entre nós é achar sério o que é ridículo, e ridículo o que é sério”.


Daí, não me iludo com a vida alheia. Quando falam com muito entusiasmo de personalidades, de seu progresso profissional ou afetivo, olho sempre com desconfiança. Quando me perguntam quem eu gostaria de ser, não cito os grandes nomes, mesmo aqueles cuja plateia ecoa em idolatria, admiração e amor. Ora, cada qual suporta uma sua dor, mas nem sempre ela é sentida pelos outros a apenas enxergar o que se é permitido no olhar da conveniência de todo sempre e de todas as gentes. Não, não gostaria de ser ninguém, não tenho vontade de ser nem de ter nada dos outros. Por outro lado, se me perguntassem: “Quem eu não gostaria de ser”, a resposta pularia do trampolim da língua: Raymundo Netto, esse eu conheço bem. Deus me livre!

De assim, continuo a (prot)agonizar o papel desse sujeitinho ridículo, como as cartas de amor de Pessoa, com a fria esperança de uma dia liberdade, de uma tarde compreensão e de a noite ser em silêncio.

“Eu sei que tudo é como o fumo leve:/Foge... mas, porque a vida seja breve, /Há sempre um dia mais para quem ama” *.

 (*) Mário da Silveira (1899-1921)


segunda-feira, 9 de abril de 2012


"Foste tu mesmo quem escreveu Mundo dos Vivos? Ou o Rubem Fonseca?
Li ontem, assim que chegou teu precioso livro de contos. De autor maduro, ciente de seu ofício. Quem és tu mesmo para arrebatares tantos prêmios literários? Chegou-me a obra. Queria saber do escritor.
Obrigado pelo livro que li logo".
O Lustosa

Este e-mail foi enviado por Carlos Vazconcelos, e postado por Silas Falcão.

sábado, 7 de abril de 2012


                           HARLEY, O PALHAÇO CARA MELADA

                                                                                 Brutalmente assassinado.

                                         UM MINUTO DE RISOS


Silas Falcão


Dia 16/03, enviei para o Lustosa da Costa os livros Crateús: 100 anos, em comemoração ao centenário político de minha cidade e Mundo dos vivos, do Carlos Vazconcelos. Eis, então, os comentários do Lustosa.


"Silas Falcão, o livro sobre Crateús tem inestimável valor histórico. Agora o Mundo dos vivos é de autor maduro e experiente, por mais aparente, segundo ouço falar, ser alguém que vivia do comércio ate um dia destes. Livro para ficar. Diga a ele que, se isto o faz feliz li o livro dele. Logo que o peguei, me prendeu aquela fuga do pai para comprar cigarros como o Bernardo Cabral fez com a Zélia. A sensação de estar se livrando dos encargos familiares, domésticos, foram páginas de excelente qualidade. Li ontem à noite uma parte, até o vinho me convocar a morfeu. Hoje continuei e a boa impressão com ela, a continuação. Quem é este cara? Sobrinho do monsenhor Aesilau, de Tianguá? O que fazia o autor do Mundo dos vivos, antes de parir tal obra prima?"
O abraço do Lustosa

quinta-feira, 5 de abril de 2012


                                        O FUNDO FALSO DA VERDADE

De longe ele o vigiava. Felino nos movimentos seguiu os passos do outro. Olhou em volta. Rua deserta. Avançou.
– Passa a sacola.
– Mas não tem nada de valor.
– Tem. Vi o que você guardou dentro dela. Passa a sacola ou atiro.
O velho de andar de ave obedeceu.
Rapidamente conferiu o conteúdo da sacola. Sorriu guardando a reluzente pistola na pasta executiva em couro legitimo e saiu veloz.
Só em casa é que percebe que o dinheiro é falsificado.

Silas Falcão

segunda-feira, 2 de abril de 2012

                       E A FRANÇA DEPORTARIA PICASSO?


Há algumas semanas li um livro sobre um dos momentos mais interessantes do século XX: as aventuras da arte moderna de 1900 a 1930 em Paris. Nós conhecemos muito ou pouco desse momento (quem assistiu ao filme “Meia-noite em Paris” de Woody Allen sabe do fascínio que esse período, especialmente os anos 20, exerce sobre nós): quem não queria beber e conversar com Modigliani, Picasso, Apollinaire, Hemingway, Soutine, enquanto se explorava os bares de Montmartre e  Montparnasse? Muito da aura poética de Paris surgiu desse período. Paris do surrealismo, da arte abstrata, Paris dos bares, cabarets e cafés, das galerias, Paris berço da boemia. Mas uma coisa é interessante de se observar: a maior parte desses artistas que ajudaram a construir o mito de Paris como destino inultrapassável das artes eram estrangeiros.
O autor desse livro tem uma tese sobre o que aconteceria com esses artistas estrangeiros na Paris atual: “Eles escolheram viver em Paris, cidade fraternal, generosa, que soube oferecer a liberdade a esses povos vindos de fora. Hoje, Picasso, Apollinaire, Modigliani, Cendrars e Soutine não estariam mais aqui. Eles teriam sido rejeitados para longe do Sena. O espanhol por uso de drogas, o ítalo-polonês por dissimulação, o italiano por escândalo na via pública, o suíço por roubos na estalagem, o russo por miséria crônica e mendicância disfarçável à duras penas”. Essa tese parece ser muito dura: Paris (e, claro, a França) se tornou rígida demais e, sobretudo, intolerante com os estrangeiros. Mas isso é o que nos dizem os debates políticos daqui, enormemente dominados pelo tema da imigração. Virulências que não partem apenas da extrema-direita xenófoba do Front National, mas escondidas na plataforma do Partido Socialista.
As festas épicas organizadas em Paris pelos artistas do começo do século seriam hoje consideradas casos de polícia. Quando os boêmios de Montmartre declararam sua independência, quando os artistas em peso se fantasiaram com as roupas do exército francês da época da comuna de Paris e desfilaram pelas ruas levando garrafas de vinho (o objetivo era fazer uma barricada no apartamento que Poulbot alugava para impedir que o proprietário colocasse o pobre pintor na rua), eles não sofreram repressão. Mas hoje as coisas seriam radicalmente diferentes: declarar uma parte de Paris independente, mesmo que num mero ato estético de distinguir esse bairro de artistas dos outros da burguesia afetada, seria considerado um insulto à Pátria, talvez até uma questão de segurança nacional.
    (Em sentido horário, Fitzgerald, Gertrude Stein, Hemingway e Picasso)
Esses artistas estrangeiros não teriam mais a liberdade dessa época: em primeiro lugar, eles não poderiam mais vir morar em Paris sem que antes especificassem qual o objetivo de sua estadia e por quanto tempo permaneceriam. E deles seriam exigidas a comprovação de condições financeiras, um endereço fixo (coisa que quase nenhum deles tinham) e outras coisas que permitissem que o estado os pudesse rastrear mais facilmente. Vir à Paris para escrever e pintar? Só através das cada vez mais parcas concessões de bolsas de estudo. E mesmo se conseguissem, que escrevessem à la Beat generation, rapidamente, pois o tempo é curto. Se quisessem festejar a vida, que o fizessem com menos barulho possível, pois em Paris os decibéis são rigorosamente controlados. Morar em Montmartre e Montparnasse? Esqueça, esses são dois dos bairros mais caros, com o valor do aluguel de um ateliê (leia-se kitnet) ao redor de 1000 euros. Muito provavelmente esses artistas estariam morando nas periferias mais distantes, onde os estrangeiros pobres são engavetados (e onde a vida noturna é praticamente inexistente). Morar em pensões, pagas quando podiam e das maneiras mais inusitadas? Sinto muito, elas não existem mais: tornaram-se hotéis. Fazer bicos para comprar o vinho diário e ocasionalmente uma refeição quente, como a maior parte deles fazia? Só se tiverem a sorte de ter impresso no visto uma pequena autorização de trabalho. Vender as pinturas nas ruas, como fazia Utrillo nos momentos em que a fome apertava? Dirija-se à prefeitura para conseguir a autorização (e comprove que você não está na França ilegalmente, o que era o caso do Utrillo).

                         (Pintura de Utrillo “Rue Custine a Montmartre)
São tantas as diferenças entre a França daquela época e a de hoje… Talvez alguém pudesse dizer que essa França do começo do século XX é precisamente isso, uma França de outros tempos. Mas o fato é que ela mudou para pior. E as coisas estarão cada vez mais sombrias num futuro muito próximo: se hoje o único caminho para algum escritor ou artista vir à Paris é através de bolsas de estudo, em breve essa porta se tornará uma janela. A circular Guéant, idealizada por um ministro abertamente xenófobo (que declarou há alguns meses que a civilização ocidental é superior às outras), vai reduzir drasticamente a entrada de estrangeiros que pretendam estudar na França. A desculpa: a França não quer contribuir para a pilhagem de cérebros estrangeiros.
As pesquisas eleitorais nesse mês que antecede as eleições presidenciais mostram que a direita vencerá. E, mais assustador ainda, a extrema-direita receberá milhões de votos. A França de hoje é mais intolerante, fechada. E o governo já declarou sua intenção de sair do tratado de livre-circulação da Europa. Esses artistas de países vizinhos seriam barrados ou deportados, e os de países distantes receberiam apenas o visto de turistas (se mostrassem condições financeiras para tal). Imaginam Picasso deportado?


                                                        Yuri Falcão


                      DEVANEIOS, DELÍRIOS & DESAMORES

Devaneios, delírios & desamores, romance do escritor contemporâneo, Francisco Bernivaldo Carneiro, traduz o embevecimento, enlevo e encantamento que a vida nos possibilita. Não esquece o autor de projetar suas lentes sobre os desamores, e outras mazelas comuns no dia a dia das pessoas.  Através das citações de Victor Hugo, Fernando Pessoa, José Saramago, Nietzsche, Machado de Assis, Jorge Amado, Lya Luft..., para citar poucos, o leitor convive com ilustres literatos e observadores da condição humana.
A obra chama a atenção pela elegância vocabular e criatividade com que o autor descreve personagens, cenários e situações cotidianas. Um dos personagens que compõem o romance, o jovem adolescente Fred Júnior, retrata um diálogo corriqueiro, entre pais e filho que se amam.  Bernivaldo Carneiro é brilhante ao apresentar o Maçaroca, nome dado em referência ao estilo de cabelo encaracolado, “black power”, que usa o marido traído.  Várias outras histórias de vidas envolventes, descritas de forma originalíssima, nos possibilitam vivenciar uma gama de sentimentos que alternam entre o pesar, medo, ilusão, esperança, paciência, tolerância, alegria, tristeza, indignação... enfim, uma explosão de emoções.
O comportamento de Dora e Tilda, para mencionar duas outras importantes personagens no romance, reflete como a integridade moral cede, em detrimento da sobrevivência. Carências afetivas, político-sociais e financeiras desencadeiam atitudes inesperadas, extremos da degradação da miséria humana, travestidas de amores e, naturalmente, desamores. Diante de profundo sofrimento das vítimas, a religiosidade que aliena as consola, fazendo-se presente no desfecho final do romance.
Por fim, Bernivaldo Carneiro circula confortavelmente pelo mundo literário através de mais uma obra de sua autoria, que vem somar-se às outras publicações: Fofocas, futricas e folclore (romance, 1998), Satirizando o Cotidiano (crônica, 1999), Nas Garras de um Irreverente (crônica, 2000), Valentia-Felina (registro histórico, 2007).
Segundo Henry Van Dyke, o tempo é muito lento para os que esperam e muito rápido para os que têm medo, muito longo para os que sofrem e muito curto para os que se alegram. Mas para os que amam o tempo é eterno. Bernivaldo eterniza o seu amor pela vida e pela literatura brasileira através de Devaneios, delírios & desamores (2011). Li e gostei. Recomendo.
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Apreciação\crítica literária: Maria Linda Lemos Bezerra integra a Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará – ALMECE; Sócia Honorária da Academia Lavrense de Letras e Vice-Presidente da Associação Cearense de Escritores – ACE.