terça-feira, 27 de janeiro de 2015


NOVO SECRETÁRIO DA CULTURA, GUILHERME SAMPAIO, FALA SOBRE AS PRIORIDADES PARA A ÁREA.

Ainda se inteirando do funcionamento da Secretaria de Cultura, Guilherme Sampaio promete para os primeiros 100 dias de gestão iniciar a obra da Biblioteca Pública Menezes Pimentel e colocar o São Luiz para funcionar
Com nove dias à frente da Secretaria de Cultura do Estado (Secult), o ex-vereador Guilherme Sampaio, 44 anos, não esconde que ainda há muito por conhecer da pasta que assumiu. “É um desafio muito complexo”, ele admite, mesmo para quem sempre legislou na área da cultura, especialmente no âmbito municipal. A tarefa se torna mais desafiadora porque a cultura é, agora, uma das prioridades do governo estadual. Ao menos é o que diz o governador eleito Camilo Santana. Em uma hora de conversa com O POVO, o novo secretário revela suas intenções para a nova gestão e promete acabar com os tempos de a área ser considerada a “prima pobre”. 
OPOVO - Que diagnóstico o senhor já fez da Secult?

Guilherme Sampaio - Eu recebo a secretaria em condições muito superiores às que meus antecessores receberam. Isso é um fato. Obviamente, isso não exclui as limitações estruturais. A institucionalidade da cultura ainda é muito frágil. Está muito claro pra mim que a gente vai ter de montar uma equipe muito sólida no conteúdo e ao lado disso, muito consistente na gestão. As ações que o Paulo (Mamede, ex-secretário) desenvolveu nesse um ano e três meses foram um prenúncio do que nós vamos aprofundar agora com 
mais tempo. 
 

OP - Qual é o projeto do senhor para a cultura no Ceará?

Guilherme Sampaio - Nesse momento é importante tratar da concepção. Vou partir de algumas palavras. A primeira é afirmação. Eu estou convencido do compromisso política do governador (com a cultura). E isso traz uma oportunidade histórica. Essa conjuntura nos traz a responsabilidade de ocupar esse espaço. Afirmar a cultura cearense. Acabar com essa história de cultura é a prima pobre. Cultura é a base do desenvolvimento do Estado. Eu trabalho com um conceito antropológico de que a cultura é o conjunto de todas as práticas do modo de ser, de viver, de trabalhar, de criar, de amar, de sofrer de um povo. Eu espero, e vou trabalhar muito para isso, que nesses quatro anos aqui na Secult a cultura seja afirmada como estratégica. Acabar com essa história de prima pobre e afirmar a cultura com a força que ela tem.
 
OP - O que isso vai significar na prática? 

Guilherme Sampaio - A primeira palavra é afirmação, a segunda é diálogo. Diálogo como método. Até o início de fevereiro, eu espero fazer um primeiro momento com uma reunião bastante ampla, de um diálogo cultural com artistas, produtores, gestores, intelectuais do campo da cultura, educadores. Isso será feito em Fortaleza e no interior do Estado. O sentido desse diálogo é criar as condições pra um grande pacto de fortalecimento da cultura cearense. A terceira palavra é presença da Secult no estado todo. Eu estou assumindo pessoalmente esse compromisso de liderar as políticas culturais em Fortaleza, mas também no interior do Estado. Nós vamos estruturar escritórios regionais da Secult no interior, faz parte do nosso programa de governo construir quatro equipamentos culturais no interior do Estado.

OP - Já existe algum projeto para isso, do perfil desses equipamentos, onde serão construídos? 

Guilherme Sampaio - Não. Isso faz parte dos desafios do primeiro ano, que é muito de preparação. Vai ser isso: uma revisão da estrutura da secretaria, atualização das legislações que precisam ser revistas - tem o Plano Estadual de Cultura pra ser aprovado na Assembleia, a nova lei do Sistema Estadual da Cultura e tem a própria lei do concurso público, que nós queremos aprovar para realizar ainda este ano. E ao lado disso, a concepção dos compromissos de campanha. Nós vamos ter ainda 13 escolas de tempo integral, 12 delas no interior do Estado, com educação profissionalizante voltada para o campo da cultura. E, obviamente, continuidade de projetos importantes que vinham sendo desenvolvidos.

OP - Um desses projetos é a reforma da Biblioteca Pública Governador Menezes Pimentel, fechada desde fevereiro do ano passado. Mas, além disso, há o funcionamento do Cine-teatro São Luiz, que foi inaugurado com pompa e circunstância, mas segue fechado; etc. São muitas coisas a serem tocadas. Qual será a prioridade nesse primeiro momento?
Guilherme Sampaio - A gente está elaborando uma lista de ações para os primeiros 100 dias de governo. A primeira delas é dar a ordem de serviço da obra da Biblioteca. Ela já foi licitada, custa R$ 9 milhões, e aguarda a aprovação do Mapp (Monitoramento de Ações e Programas Prioritários). Ao lado disso, o São Luiz. É preciso concluir a obra. Ele foi inaugurado, mas há alguns detalhes que são muito importantes que precisam ser acertados. A sinalização, a segurança, alguns ajustes no projeto original. A obra será finalizada em todos esses detalhes e o modelo de gestão e a programação inicial serão definidos. Vai haver um profissional de altíssimo nível para cuidar da programação do cine-teatro. Dentro desses primeiros 100 dias, São Luiz e Biblioteca Pública serão prioridade. 
 

OP - Todas as secretarias do governo do Estado terão de economizar até 25% dos gastos de custeio. Como isso vai afetar
a Secult?

Guilherme Sampaio - A Secult faz parte do governo. É um momento de restrição orçamentária, mas eu entendo que as margens da Secult pra fazer qualquer limitação de custeio são mínimas. A limitação de custeio para a Secult nesse momento é um pouco incompatível. Já coloquei isso para o Cogerf (Comitê de Gestão por Resultados e Gestão Fiscal) e vou conversar com o governador. O que será possível, e eu já estou fazendo, é identificar situações de desperdício.  

OP - A principal promessa de Camilo Santana para a área da cultura foi aumentar o orçamento da pasta para 1,5%. Como isso será articulado na Assembleia Legislativa?

Guilherme Sampaio - Na minha avaliação, não tem nenhuma hipótese de a gente terminar o governo sem alcançar essa meta. A minha experiência parlamentar me favorece muito na parceria com a Assembleia. Vou conversar com meus colegas deputados para que invistam na cultura. Porque há uma visão muito limitada da política cultural. Quando a população começar a ter acesso, ela vai naturalmente demandar cultura, e isso começa a ser também uma pauta política de destaque.

OP - Como o senhor pretende trabalhar a intersecção entre cultura e educação?

Guilherme Sampaio - Há coisas pontuais, como as escolas profissionalizantes voltadas para o campo da cultura, mas essa integração é muito mais potente do que isso. Nós temos milhares de professores de artes nas escolas, então cada escola é um equipamento cultural. A nossa proposta para o Maurício (Holanda Maia, secretário de Educação do Estado) é formar um grupo de trabalho de alto nível para pensar a integração das políticas de educação e cultura. 
 

OP - O Dragão do Mar é o principal movimentador da cultura em Fortaleza. Como será a relação da Secult com esse equipamento tão importante? O novo gestor já foi definido?

Paulo Linhares continua?

Guilherme Sampaio - Será um carro-chefe da programação cultural em Fortaleza, como é, mas nós queremos também que o Dragão seja tocador e referência para os projetos no interior do Estado. Por exemplo, esses centros culturais que serão criados com certeza vão beber da experiência do Dragão. As experiências de formação do Porto Iracema, nós pretendemos expandi-las para o interior do Estado. O Dragão é um equipamento da Secretaria de Cultura do Estado, então ele estará em sintonia com a política cultural liderada pelo secretário. A definição de direção vai obedecer os mesmos critérios que o governador está usando para os demais órgãos do segundo escalão. Nesse primeiro momento foram nomeados os secretários, em fevereiro serão nomeados os adjuntos e executivos, e a discussão do segundo escalão.

OP - O senhor sempre demonstrou uma posição crítica em relação ao governo Cid Gomes e a gestão municipal do prefeito Roberto Cláudio, especialmente. Durante os oito anos de Cid Gomes à frente do Estado, a Secult viveu quase sempre em estado de apatia, apesar da última gestão ter dado um certo fôlego à pasta. Paralelamente, o atual governador foi indicado e apoiado por Cid. Como fica esse jogo político em sua gestão?
Guilherme Sampaio - Eu queria primeiro contestar essa apatia. É óbvio que houve problemas de credibilidade, de relação com o meio artístico etc. Mas eu estou recebendo a Pinacoteca do Estado em andamento, o projeto do Corredor Cultural do Benfica, o projeto do mapeamento cultural, a obra da Biblioteca já licitada, o projeto de reforma do Arquivo Público e do arquivo intermediário, o projeto de reforma do Museu do Ceará, 20 salas de cinema para o interior já captadas. Nem tudo se faz em um ano e três meses, sobretudo projetos estruturantes como esses. O meu partido tem uma posição de oposição à administração municipal e, na Câmara, eu exercia a função de líder da oposição. Agora eu exerço a função de gestor público. Minha obrigação é colaborar com todas as prefeituras independentemente do posicionamento partidário, ideológico. A primeira pessoa que me telefonou pra dar os parabéns foi o secretário (de cultura de Fortaleza) Magela Lima, que é um amigo pessoal, e eu já falei pra ele: vamos ter uma colaboração máxima. Não só com Fortaleza, mas com todas as prefeituras.

OP - A política de editais vem sendo um problema na Secult há muito tempo. Quando o edital é lançado, tem atraso nos pagamentos dos artistas, o diálogo é falho com a Secult, falta clareza nas regras do certame etc. Como o senhor vai lidar com isso?

Guilherme Sampaio - Nós vamos ampliar fortemente o investimento em edital. Nós tivemos, nos melhores momentos, cerca de R$ 30 milhões investidos e vamos para R$ 40 milhões. Não no primeiro ano, agora devemos repetir mais ou menos o que aconteceu nos anos anteriores, aperfeiçoando pontualmente os projetos. Mas ao longo da gestão eu pretendo superar os R$ 40 milhões. 

Frases
"Nós vamos ampliar fortemente o investimento em edital. Nós tivemos, nos melhores momentos, cerca de R$ 30 milhões investidos e vamos para R$ 40 milhões"

"Vamos estruturar escritórios regionais da Secult no interior, faz parte do nosso programa de governo construir quatro equipamentos culturais no Interior"

Jornal O Povo


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015



O Poeta de Meia Tigela lança nova revista literária Mutirão. Exemplares poetademeiatigela@yahoo.com.br






sexta-feira, 23 de janeiro de 2015



Os editores Madjer Pontes e Nathan Matos – Editora Substânsia – e Silas Falcão – LuAzul Edições – elaborando as primeiras ideias de um novo projeto literário que será lançado brevemente em Fortaleza. Aguardem.





Fortaleza 21: A literatura fortalezense no século XXI" projeto literário dos editores Talles Azigon, Nathan Matos e Madjer Pontes entrevistando o Poeta de Meia Tigela e Frederico Régis, também Poetas de Quinta. Sexta, na Biblioteca Dolar Barreira.





terça-feira, 13 de janeiro de 2015


A MORTE ANUNCIADA DE MÁRIO GOMES

Batista de Lima
Diário do Nordeste

Quando Mário Gomes casou-se com Fortaleza, fazia escuro e nós cantávamos versos na Casa de Juvenal Galeno. 68 era um ano que prenunciava não ter mais fim. Todos os sonhos se dilaceravam e Mário ainda tinha os pés e a mãe no Bonsucesso. Sua cabeça, entretanto oscilava entre a praça e a nuvem. No auge dessa dúvida, ele pregava uma orgia universal, mais ou menos com as palavras daquele simbolista maldito que de plena França gritou um dia: "embriagai-vos/ não importa de que/ mas embriagai-vos". Sua embriaguez era pela loura ainda desposada do sol. Era pelo coração dela, aquela mesma praça que um dia Paula Nei cismou de abandoná-la, fugindo para o Sul, e José Albano de tanto amá-la, preferiu dela fugir para mochilar em Europa, França e Bahia.
Mário Gomes conquistou o coração de sua amada. Deixou o subúrbio sem mala e sem cuia, sem a mãe e sem os comprimidos e montou presença no nervo mais exposto de sua amada, a Praça do Ferreira. Ali montou escritório em um de seus bancos de cimento e brisa, reuniu seus vassalos, todos fardados de lirismo e sonhos e desreinou poeticamente por décadas. Ali açoitou, com seus gritos poéticos, multidões de tributáveis criaturas que não vislumbravam aquele ninho em que a poesia chocava ovos de lirismo. Mistura de Whitman com Artaud, reunia, em torno de si, seu séquito de guardiões das musas e ensaiava os passos da desloucura pairante. Amava Fortaleza como habitante de seu coração.
Como acontecera antes com Antônio Girão, um dia ficou prenhe desta cidade, de musculatura avariada. Gritou para as oiças da sua amada que era a última salvação desta dama emparedada. Assim foi sendo preservado por ela, sem mãe, sem medicamentos, ao sol e à chuva como um arauto de um apocalipse iminente. Mário Gomes profetizou, nós é que não lhe demos crédito. Alojou-se nos seus sapatos e em conluio com seu pensamento rebelde proclamou que o sonho não havia morrido naqueles distantes anos de chumbo e que ele estava ali onde um dia Barbosa de Freitas e Joaquim de Souza o havia plantado. Mário Gomes dizia, nós é que não acreditávamos. Apenas contávamos as horas que faltavam para a indesejada levá-lo para o mundo dos ventos que não voltam.
Último dos byronianos de nosso chão, ultimamente esteve no limiar entre a loucura e a lucidez. Não se vestiu de uma nem de outra, preferiu o paletó amarfanhado, a barba por fazer e os sapatos por residência. Vasculhou o corpo da cidade onde ela mais pulsa, onde todos os caminhos se cruzam, num tecido de destinos e pressas. Ali ele instalou-se, observador desse fluir, mar, e Mário e estuário, deglutindo antropofagicamente a neura alada da urbe atravessada por infinitas interrogações. Nunca entendeu porque a legião de seus antigos companheiros, que brandiam o verso como arma, sucumbiram entre gravatas, bravatas e cifras, aos encantos da Dalila do enquadramento social.
Carneiro Portela, Márcio Catunda, Aírton Monte, Pádua Lima, Iton Lopes, Valden Luís, Nelson Freitas, Jackson Sampaio, Josênio Parente, Silvino Neves, Luiz Ribeiro, Pedro Albino, Rembrant Esmeraldo, Renato Saldanha, Ricardo Guilherme, Nonato de Brito, todos faziam poesia, mas Mário Ferreira Gomes vivia a poesia e era salvo por ela. E do alto dos seus versos verberava: "Meu nome é pensamento/Moro nos meus sapatos". Por conta desse desmonte do convencional, tornou-se único no seu "motus vivendi". Daí já ter sido tema de dissertação de mestrado e ter no seu séquito de discípulos, quem sugerisse até a mudança do nome Praça do Ferreira para Praça Mário Gomes.
Como 2014 foi ano em que muitos literatos migraram para não mais voltarem, ele pegou a fila humildemente como último colocado. Deixou que fossem Ivan Junqueira, João Ubaldo, Ariano Suassuna, Artur Eduardo Benevides, Manoel de Barros e Nilto Maciel. Foi aí que ele aproveitou o embalo e também se foi sem nos dar adeus. Antes, no entanto protestou: "Vivo encarcerado nessa carcaça de carne e osso por nome Mário Gomes, mas um dia me libertarei, dando descanso a esse pobre coitado". Dele para ele, continuava: "Mário Gomes, me desculpe, mas às vezes você me enraivece com sua sede, com sua embriaguez, com sua fome".
Esse pensamento e a vida dissoluta ele já transportava, nos estertores da década de 1960, quando beletrávamos nas noites dos sábados no Clube dos Poetas Cearenses. Ao final das reuniões, íamos para nossas casas e Mário ia para os braços da sua musa, a noite fortalezense. Essa musa o segurou para além das nossas previsões. Alcançou a linha de chegada aos 67 anos de vida airosa, levando sempre a esperança à frente e os desenganos atrás. "Beijei a boca da noite / e engoli milhões de estrelas / fiquei iluminado", disse ele no poema "Ação gigantesca". "Quando estou aqui na praça e cai uma folhinha em mim, penso que foi um beijo que a natureza me deu".
Na sua irreverência assumida, sempre se proclamou "vagabundo e malandro". E na sua biografia fazia questão de acentuar sua aposentadoria aos 29 anos como louco. Compromissado unicamente com a máxima liberdade possível, curtiu prisões, fez grandes viagens de carona e a pé e quando internado no manicômio ainda teve a lucidez de enumerar os 12 choques elétricos que lhe aplicaram. Com essas torturas, tornaram-no mais poeta, mais habitante da margem esquerda dessa correnteza em que o resto da população é levada como boiada servil. Dos seus oito livros deixados, dos amigos que ficaram, dos parceiros Márcio Catunda e Alcides Pinto, há um verso que caracteriza bem o seu viver: "Foi gostoso viver".


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015



SEXTA-FEIRA NEGRA


Pela metade do preço
Comprei o mundo
De um Louco Cabeludo

Fiquei devendo
O que não tinha:
Tudo

Ele teve Seu merecido descanso
Ficou de cima contemplando
Estas coisas Dele que eu cuido


                                                        Fred

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

HOMENAGEM DE SILAS FALCÃO A MÁRIO GOMES


Página 61 do Livreto Mutirão (clicar para ampliar)

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MEU EPITÁFIO


Já que a Natureza
me trouxe chorando, deixai, ô morte
que eu morra rindo de ti!


Mário Gomes