quinta-feira, 10 de março de 2011

                                   
  
                                   Seria culpa da genética?

Por Bernivaldo Carneiro

No princípio de 1980 quando assumi o emprego que ainda hoje me acolhe, Narciso Baco Fortuna Pavão já se encontrava por aqui. Então, com apenas vinte e dois anos de idade e recém-iniciado no ofício de entornar uns tragos; já era de pôr tonto quem observasse, mesmo que à distância, o talento, a dedicação e, principalmente, a voracidade com que se dava aos prazeres alcoólicos. Mas foi exatamente quando o destino me levou a surpreendê-lo dedilhando o violão em um de seus barezinhos prediletos, que me caiu de vez a ficha: a bebida havia de fato entrado na existência de Narciso para lhe inspirar a alma no aperfeiçoar o gosto pela boêmia, trazido do berço.
 Fiel à purinha, dia após dia adicionava uma dose a mais no lubrificar a garganta e também acrescia um cigarro no poluir nossa atmosfera, no defumar suas cordas vocais e no sedimentar o pulmão com nicotina e alcatrão. Uma bola fora contra a própria saúde. Um voo em rota de colisão com a carreira profissional — a princípio, entendida por alguns como promissora. De fato, elogiáveis eram a dedicação e o voluntarismo demonstrados ao ingressar no emprego. Virtudes que despencavam em queda livre à medida que materializava a vida alada. Regrediu de pró-ativo a ativo; de ativo a reativo e em pouco tempo a inativo. Uma vez que, sem forças para se abster do álcool, abstinha-se de marcar o ponto. Isso no trabalho: esclareça-se. Ao passo que nos botecos era de uma assiduidade ímpar. Nem mesmo no dia em que o mal súbito abriu cova ao decrépito esqueleto de seu velho, Narciso se fez ausente ao seu point da época. E não esteve só em tão difícil hora. Naquele morrer do dia e nascer da noite a solidariedade se fez presente na figura dos demais papudinhos egressos do Parque da Paz.
E foi com os olhos marejados pela dor da perda e a voz embargada pela emoção da orfandade, que ele, entre um gole e outro, manifestou todo o orgulho que o pai lhe depositara no coração. — “Apesar da impiedosa doença e da idade avançada (mês passado comemoramos seus setenta e cinco janeiros) em nenhum momento meu velho deixou a peteca cair. Pelo contrário, jamais deu trela para o que decretavam, em uníssono, os médicos. E olhe que ele tinha consciência do assédio da morte. Tinha sim! E como tinha!... Mas quem disse que ele se abateu diante de tal espreita?! Jamais emborcou o copo nem tampouco deixou de acender um cigarro na bagana do outro. Enfim: curtiu bravamente a vida até o último minuto de sua estendida existência”.
Bem, dada esta breve prova da admiração de Narciso pela curtição do pai, que era também a sua, entreguemo-lo ao emprego. Não sem antes esclarecer o quanto efêmera fora a sua vida. Uma mudança de plano sem repetir integralmente o idealizado genitor. Ainda às vésperas de soprar as quarenta e seis velas, porém um ano depois de celebrar as bodas de prata da efetiva parceria firmada com a boêmia. Ou seja: cerca de oito anos depois de deixar a repartição de origem.
É que as severas cobranças do chefe da época, as chacotas e piadas de alguns e os cáusticos comentários de outros, colocavam-no os nervos de prontidão. A saída foi Narciso Baco lançar mão de seu prestígio político. E foi com hálito etílico que nosso protagonista desabafou todo seu inconformismo no ouvido de um influente parlamentar de sua especial estima. De pronto o homem se articulou com Brasília e dias depois (de peito lavado) nosso boêmio descarregava, em uma prefeitura interiorana, o apetite de gambá e a ânsia caipora que trazia no peito. Mas isso sem nenhuma disposição para o trabalho. E lá, acobertado pelo relaxado manto da municipalidade, pôs-se integralmente à disposição da Sapupara: a paixão do momento. Tempo em que iam longe os anos de fidelidade à Dandiz, à Colonial, à... A propósito, foi no Museu da Cachaça (em dias de sua lua de mel com a Ypioca) que eu vi Narciso Baco pela última vez.
Parecia feliz naquela manhã, apesar do próprio físico em nada favorecer a tal estado d’alma. O quebrado e caído bucho contrastava com a explícita carência de músculo nos braços, pernas e nádegas. Também acentuada era a tonalidade verde-cirrose de suas faces tingidas pelo efeito da “maldita”. Ou alguém ignora ser essa, a forma com que os males da dita cuja manifesta a fraqueza do sangue em organismo imoderadamente consumidor? Sobretudo, quando agravados pela potencialização da nicotina, alcatrão e milhares de outras substâncias químicas nocivas à saúde, depositadas pelo tabaco nas entranhas do sujeito. De forma que naquela minha única visita ao aludido museu, não pude deixar de ver e ouvi-lo. Encabeçando a fila da terceira degustação, Narciso tinha ao pé seus companheiros da “Van”, fretada em excursão semanal aos alambiques da terra de Chico Anísio.
Como sempre, falava pelos cotovelos e apesar do teor do discurso ser o mesmo de tempos idos; parecia lhe faltar energia ao gestual e fôlego à voz para se expressar teatralmente como antes. Uma cultura de botequim que se associava aos seus gestos cênicos aprimorados em mais de vinte anos de balcão. Enfim: discorria sobre o que ele denominava de “O elixir nosso de cada dia”. E como em sua fluência fácil não era de economizar elogios à aguardente: adjetivação era o que não faltava na apologia que fazias aos benefícios do álcool. Aliás, vantagens que, como ninguém, ele conseguia extrair desse destilado da cana de açúcar. — “Toda e qualquer pinga é um depurativo do sangue e da alma” — a entonação mesclada com resquícios dos tremores matinais provocados pela abstinência alcoólica durante o sono, não dava os menos avisados nenhuma margem à dúvida: tratava-se sim de um emérito estudioso do assunto. De um convicto consumidor do produto. — “Sabia gente que os usuários da purinha nem verme têm? E olhe que eu conheço hospedeiro de lombriga pela cara”. — Dito isso, um sorriso, a um só tempo patético e misto de lubricidade e orgulho, alastrava-se por aquele rosto erodido pelo vício. E assim assumia feições de um cientista que (com acento humorístico), dava conta ao mundo de uma valorosa contribuição para a saúde da humanidade. 

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